A Casa que Esqueceu de Morrer
Por
Gustavo José
Era outono quando cheguei pela primeira vez àquele caminho esquecido, uma estrada de cascalho que serpenteava por entre árvores nuas, como dedos esqueléticos apontando para o céu cinzento. O ar estava pesado, carregado de umidade e do cheiro de folhas apodrecidas. No fim da alameda, erguia-se ela: a mansão. Não uma casa qualquer, mas um colosso de tijolos vermelhos desbotados, com telhado inclinado e janelas quebradas que pareciam olhos vazios, fitando o nada. As trepadeiras subiam pelas paredes como veias pulsantes, tentando sufocar o que restava de vida naquele corpo arquitetônico. O portão enferrujado rangia ao vento, e o caminho de entrada, outrora impecável, agora era coberto por um tapete de folhas mortas que estalavam sob meus pés como ossos frágeis.
Eu era jovem então, um fotógrafo urbano obcecado por lugares abandonados. Chamavam-nos de "exploradores urbanos", mas no fundo eu sabia que era mais do que curiosidade: era uma atração pelo silêncio que grita, pelo tempo que devora tudo. Aquela mansão, perdida nos arredores de uma pequena cidade alemã, havia sido um sanatório no início do século XX. Construída para curar tuberculosos, com alas amplas para banhos de ar fresco e quartos altos para isolar os doentes do mundo. Depois veio a guerra, e ela serviu de hospital militar. Diziam que Hitler himself havia se tratado ali por um tempo, durante a Primeira Guerra. Mas isso eram lendas. O que importava era o que restava: um esqueleto de glória passada, envolto em névoa e mistério.
Entrei pela porta lateral, que pendia torta nas dobradiças. O interior era um labirinto de corredores escuros, iluminados apenas por feixes de luz que penetravam as frestas das janelas tapiadas. O chão de madeira rangia, ecoando meus passos como se a casa respondesse. Papéis velhos espalhados, móveis cobertos de poeira, camas de ferro enferrujadas em fileiras — resquícios de uma era em que centenas de almas tossiam suas vidas ali. O cheiro era de mofo e algo mais, algo metálico, como sangue antigo. Parei em um salão principal, onde um piano de cauda jazia aberto, teclas amareladas como dentes podres. Toquei uma nota; o som saiu abafado, como um gemido sufocado.
Naquele dia, tirei dezenas de fotos. A imagem que mais me marcou foi a da fachada, vista de fora: o céu carregado, as árvores sem folhas enquadrando o edifício como sentinelas vigilantes, e aquela torre central com a bandeira imaginária, um mastro vazio balançando ao vento. Parecia viva, aquela casa. Não morta, mas em coma, esperando.
Anos se passaram. Voltei várias vezes. A mansão mudava pouco, resistindo ao tempo com teimosia. Em uma visita, encontrei grafites nas paredes: nomes de outros exploradores, datas, mensagens como "Eu estive aqui" ou "Ela nos observa". Em outra, ouvi histórias dos locais. Uma velha senhora da vila próxima contou que, durante a Segunda Guerra, o sanatório abrigara soldados feridos, e muitos não saíram vivos. Diziam que à noite, quando a névoa subia do rio próximo, vozes ecoavam pelos corredores. Risos de crianças — pois havia uma ala infantil — ou choros abafados de mães que perderam filhos para a doença.
Eu ria dessas histórias, cético que era. Mas havia noites em que, sozinho no escuro dos quartos abandonados, sentia um arrepio. Não medo exatamente, mas uma presença. Como se a casa respirasse. Uma vez, acampei lá dentro, com uma lanterna e um saco de dormir. Acordei no meio da noite com o som de passos no andar de cima. Lentos, arrastados. Subi as escadas rangentes, coração acelerado, e nada. Apenas o vento uivando pelas janelas quebradas. Desci, convenci-me de que era imaginação. Mas ao amanhecer, encontrei pegadas úmidas no chão poeirento — pegadas que não eram minhas.
A mansão tornou-se parte de mim. Casei, tive filhos, mudei de cidade, mas sempre voltava. Em 2019, levei minha filha adolescente, curiosa como eu fora. Ela tirou fotos com o celular, riu da escuridão, mas ao sairmos, confessou: "Pai, senti alguém me olhando das janelas". Ri, mas no fundo, soube que ela sentira o mesmo que eu.
Hoje, anos depois, a imagem daquela fachada ainda me persegue. Vejo-a em sonhos: o céu eterno nublado, as árvores como guardiãs, a casa imponente e decadente. Ela não é apenas ruína; é testemunha. Testemunha de dores, de curas falhadas, de vidas que se apagaram lentamente. Em um mundo que corre, que constrói e destrói sem pausa, lugares como aquele nos lembram da fragilidade. A casa não morreu; ela espera. Espera que o tempo a leve de vez, ou que alguém a desperte.
Às vezes, penso que todos nós somos como aquela mansão: fachadas imponentes escondendo interiores em decomposição, janelas quebradas por onde o vento da memória sopra. E no silêncio das árvores nuas, ouvimos o eco de quem fomos. A casa que esqueceu de morrer nos ensina que o esquecimento é o único remédio verdadeiro. Mas enquanto houver quem a visite, quem a fotografe, quem conte sua história, ela permanece viva. Assombrada, talvez. Mas viva.
Comentários