A Romantização do Assassinato em Filmes e Séries e o Problema do True Crime
Por
Gustavo José
Vivemos em uma época curiosa. Nunca houve tanta informação disponível sobre crimes reais, assassinos em série e tragédias humanas. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil consumir esse tipo de conteúdo como forma de entretenimento. Plataformas de streaming disputam a atenção do público com documentários sobre homicídios famosos, podcasts especializados em assassinatos acumulam milhões de ouvintes, e séries inspiradas em criminosos reais tornam-se fenômenos globais. O que antes era assunto de páginas policiais passou a ocupar o centro da cultura popular.
O fascínio pelo crime não é exatamente uma novidade. Desde os primórdios da civilização, histórias sobre assassinatos, traições e violência despertam a curiosidade humana. As tragédias gregas exploravam homicídios e vinganças. A literatura gótica dos séculos XVIII e XIX construiu seu sucesso sobre o medo e a morte. Romances policiais transformaram detetives e criminosos em personagens icônicos. O interesse pelo lado sombrio da humanidade sempre existiu.
O problema surge quando a fronteira entre compreender o crime e admirá-lo começa a desaparecer.
Nos últimos anos, uma parcela significativa da indústria do entretenimento passou a retratar assassinos não apenas como indivíduos responsáveis por atos monstruosos, mas como figuras complexas, carismáticas e, em alguns casos, até admiradas. O criminoso deixa de ser visto apenas como alguém que destruiu vidas e passa a ocupar o papel de protagonista fascinante. Sua história ganha trilha sonora, fotografia cuidadosamente elaborada, diálogos memoráveis e interpretações premiadas.
Enquanto isso, as vítimas frequentemente desaparecem da narrativa.
Esse fenômeno revela uma contradição inquietante da cultura contemporânea: a capacidade de transformar sofrimento real em produto de consumo.
Quando uma série retrata um assassino em série, é comum que grande parte do roteiro seja dedicada à sua infância, seus traumas, seus conflitos internos e suas motivações psicológicas. O espectador é convidado a entrar em sua mente. A narrativa busca explicar suas ações, contextualizar seus comportamentos e humanizar sua figura.
Em princípio, não há nada errado em tentar compreender os mecanismos psicológicos do crime. Entender não significa justificar. A análise do comportamento criminoso é importante para a psicologia, a criminologia e a própria prevenção da violência.
Entretanto, o problema surge quando a narrativa abandona a análise crítica e passa a construir uma espécie de mito em torno do criminoso.
A câmera o enquadra como uma figura intrigante. Sua inteligência é destacada. Sua aparência é cuidadosamente trabalhada. Sua personalidade ganha nuances quase sedutoras. O resultado é que muitos espectadores deixam de enxergar um assassino e passam a enxergar um personagem fascinante.
Esse processo não acontece de forma consciente na maioria das vezes. Ele é resultado de escolhas narrativas. Toda história precisa de um protagonista. Toda narrativa busca gerar empatia. Quando o protagonista é um criminoso, a tendência natural da linguagem audiovisual é aproximar o público dele.
É por isso que tantas produções acabam produzindo um efeito colateral perigoso: a glamourização da violência.
O fenômeno torna-se ainda mais evidente quando observamos a cultura criada em torno de alguns assassinos famosos. Existem comunidades inteiras dedicadas à admiração de serial killers. Pessoas compram camisetas, canecas e pôsteres com seus rostos. Algumas chegam a descrevê-los como atraentes ou carismáticos.
A internet amplificou essa tendência de maneira sem precedentes.
Em redes sociais, vídeos editados transformam criminosos reais em personagens de ficção. Cenas de séries recebem músicas românticas ao fundo. Fotografias policiais tornam-se imagens estilizadas compartilhadas milhares de vezes. Em alguns casos, assassinos responsáveis por dezenas de mortes são tratados como celebridades.
É difícil imaginar uma distorção moral mais profunda.
Nenhuma pessoa se tornaria fã de um médico que matou pacientes, de um motorista que atropelou pedestres deliberadamente ou de um terrorista responsável por massacres. No entanto, quando o assassino é apresentado por meio da linguagem do entretenimento, algo muda na percepção coletiva.
A violência deixa de parecer real.
As vítimas tornam-se números.
Os familiares desaparecem da narrativa.
Resta apenas o mito.
O crescimento explosivo do gênero True Crime intensificou ainda mais esse cenário.
Os defensores desse tipo de conteúdo costumam argumentar que ele ajuda a compreender o funcionamento da mente criminosa, expõe falhas institucionais e preserva a memória dos casos. Em muitos contextos, isso é verdade. Existem documentários extremamente responsáveis que investigam erros judiciais, desaparecimentos não solucionados e problemas sistêmicos.
Contudo, o mercado do True Crime também criou incentivos perversos.
Quanto mais chocante for um caso, maior tende a ser sua audiência.
Quanto mais cruel for o criminoso, maior costuma ser o interesse do público.
Quanto mais detalhes macabros forem apresentados, mais compartilhamentos o conteúdo recebe.
Dessa forma, o sofrimento humano transforma-se em mercadoria.
Não é difícil perceber a lógica econômica por trás desse processo. Plataformas precisam de audiência. Podcasts precisam de ouvintes. Canais precisam de visualizações. A tragédia converte-se em produto.
A questão ética é inevitável: até que ponto é aceitável lucrar com a dor alheia?
Imagine perder um filho vítima de homicídio e, anos depois, descobrir que milhões de pessoas estão assistindo a uma série baseada naquele crime enquanto comem pipoca no sofá. Imagine perceber que o responsável pela morte de alguém que você amava se tornou mais conhecido e admirado do que a própria vítima.
Essa é a realidade de muitas famílias.
Diversos parentes de vítimas já criticaram publicamente produções de True Crime por explorarem tragédias sem consulta prévia ou sem qualquer consideração pelo impacto emocional causado.
Para essas famílias, o caso nunca terminou.
A dor continua existindo.
Cada nova série, documentário ou podcast reabre feridas que jamais cicatrizaram completamente.
Enquanto o público consome a história como entretenimento, os familiares revivem o trauma.
Há também um aspecto psicológico mais profundo nessa questão.
O consumo contínuo de conteúdos violentos pode produzir um fenômeno conhecido como dessensibilização emocional. Quando somos expostos repetidamente a histórias de assassinato, desaparecimento e brutalidade, começamos a reagir com menos intensidade emocional.
O extraordinário torna-se comum.
O horrível torna-se banal.
A morte transforma-se em conteúdo.
Essa banalização é particularmente preocupante porque afeta nossa percepção da realidade. Em vez de enxergarmos cada caso como uma tragédia singular envolvendo seres humanos reais, passamos a tratá-los como episódios de uma série interminável.
A vítima deixa de ser uma pessoa.
Torna-se uma narrativa.
Torna-se um roteiro.
Torna-se mais um episódio para maratonar.
Outra consequência preocupante é a ilusão de proximidade com criminosos famosos. Muitas produções dedicam tantas horas à construção psicológica do assassino que o espectador desenvolve uma sensação de intimidade com ele.
Conhece sua infância.
Conhece seus hábitos.
Conhece seus pensamentos.
Conhece seus medos.
Ao final, sabe mais sobre o assassino do que sobre as pessoas que ele matou.
Essa inversão é profundamente reveladora.
Em teoria, as vítimas deveriam ocupar o centro da narrativa. São elas que sofreram a violência. São elas que tiveram suas vidas interrompidas. São elas que merecem memória e reconhecimento.
Mas a lógica do entretenimento frequentemente produz o efeito oposto.
O assassino ganha fama.
A vítima ganha esquecimento.
Isso não significa que filmes, séries ou documentários sobre crimes devam ser proibidos. A arte tem o direito de explorar qualquer aspecto da experiência humana, inclusive seus elementos mais sombrios. O problema não está na existência dessas obras.
O problema está na forma como elas são construídas.
Existe uma diferença enorme entre examinar criticamente um crime e transformá-lo em espetáculo.
Existe uma diferença enorme entre estudar um assassino e celebrá-lo.
Existe uma diferença enorme entre preservar a memória das vítimas e explorar comercialmente seu sofrimento.
Produções responsáveis conseguem abordar crimes reais sem cair na armadilha da glamourização. Elas contextualizam os fatos, destacam as consequências humanas, evitam sensacionalismo e mantêm o foco nas vítimas e nas questões sociais envolvidas.
Infelizmente, nem sempre essa é a abordagem predominante.
Em um mercado cada vez mais competitivo, o choque vende. A controvérsia vende. A violência vende.
E quando a lógica comercial domina completamente a narrativa, questões éticas tornam-se secundárias.
Talvez a pergunta mais importante não seja por que a indústria produz tanto conteúdo sobre assassinos, mas por que existe tanta demanda por ele.
O que buscamos quando assistimos a essas histórias?
Curiosidade?
Medo?
Adrenalina?
Segurança?
Ou existe algo mais profundo?
Talvez o crime funcione como uma espécie de espelho distorcido da condição humana. Ao observarmos indivíduos capazes de cometer atrocidades, confrontamos nossos próprios limites morais. Tentamos compreender aquilo que parece incompreensível. Buscamos respostas para perguntas que talvez não tenham resposta.
Esse interesse é legítimo.
Mas ele exige responsabilidade.
A curiosidade humana não deve se transformar em voyeurismo moral.
Existe uma linha tênue entre investigar a escuridão e consumi-la como entretenimento.
Quando essa linha desaparece, começamos a correr o risco de esquecer que por trás de cada documentário existe um cadáver real. Por trás de cada série existe uma família destruída. Por trás de cada caso famoso existe alguém que nunca teve a oportunidade de contar sua própria versão da história.
A cultura contemporânea parece ter desenvolvido uma estranha capacidade de transformar tudo em conteúdo. Tragédias, desastres, escândalos e assassinatos são rapidamente absorvidos pela máquina do entretenimento e devolvidos ao público em formatos cada vez mais atraentes e consumíveis.
O perigo não está apenas na romantização dos assassinos.
O perigo está na normalização da própria tragédia.
Quando a morte se torna apenas mais um gênero de entretenimento, algo importante se perde no caminho: nossa capacidade de enxergar a humanidade das vítimas.
Talvez seja hora de repensar a maneira como consumimos histórias de crimes reais. Talvez seja hora de perguntar quem está sendo lembrado e quem está sendo esquecido. Talvez seja hora de reconhecer que compreender o mal não exige admirá-lo.
O verdadeiro desafio ético do True Crime não é decidir se devemos falar sobre assassinos.
É decidir como falar sobre eles.
Porque toda vez que um criminoso se torna uma celebridade, existe uma vítima sendo apagada da memória coletiva.
E talvez essa seja a consequência mais perturbadora de todas.
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