Thomas vira o Guardião, com o corvo selando um ciclo sombrio
Por
Gustavo José
Era uma manhã de outono em que o mundo parecia ter sido engolido por um véu cinzento. O vilarejo de Eldridge, encravado nas colinas do interior de uma Inglaterra esquecida, acordava sob um nevoeiro tão denso que os moradores mal conseguiam ver além de suas próprias mãos estendidas. Eu, Thomas Harrow, um professor aposentado de história local, havia me mudado para lá há anos, fugindo do barulho da cidade grande. Eldridge era um lugar de lendas antigas, de contos sussurrados ao redor de fogueiras sobre espíritos que vagavam pelos campos, e eu, cético por natureza, via nelas apenas folclore para entreter turistas raros.
Naquela manhã, decidi caminhar até os campos além da vila, um hábito que cultivava para clarear a mente. O ar estava úmido, carregado de um cheiro de terra molhada e decomposição sutil, como se o solo estivesse exalando os segredos de séculos passados. Os gramados altos balançavam levemente, mas não havia vento; era como se o nevoeiro os movesse por vontade própria. Meu cachorro, um velho labrador chamado Baxter, trotava ao meu lado, farejando o chão com entusiasmo contido.
Foi então que o vi pela primeira vez. À distância, emergindo do branco opaco como uma ilusão ótica, uma silhueta escura. Um homem – ou o que parecia ser um homem – envolto em um manto com capuz, parado imóvel no meio do campo. Sobre seu ombro, uma forma ainda mais negra: um corvo, com as asas ligeiramente abertas, como se estivesse prestes a alçar voo. O pássaro não se mexia, e o homem também não. Eles pareciam uma estátua esculpida da névoa, uma visão que desafiava a lógica. Meu coração acelerou, não de medo, mas de curiosidade. Quem estaria ali, naquele isolamento, vestindo algo que lembrava as vestes de um monge medieval?
"Baxter, quieto", sussurrei, embora o cachorro não tivesse latido. Ele apenas rosnou baixinho, as orelhas abaixadas, recusando-se a avançar. Chamei o homem, mas minha voz ecoou abafada pelo nevoeiro, como se o ar a engolisse. Nenhuma resposta. Decidi me aproximar, pisando com cuidado na grama úmida. À medida que me aproximava, detalhes emergiam: o manto era gasto, rasgado nas bordas, e o corvo... ah, o corvo parecia me observar com olhos que brilhavam como contas de ônix. Seu bico era afiado, curvado como uma foice.
Quando cheguei a uns dez metros, o homem virou a cabeça levemente. Não vi seu rosto – o capuz o cobria em sombras profundas – mas senti um calafrio percorrer minha espinha. "Bom dia", disse eu, forçando um tom amigável. "Está perdido? O vilarejo fica logo ali."
Ele não respondeu. Em vez disso, o corvo crocitou, um som rouco e gutural que ecoou pelo campo como um aviso. Baxter latiu uma vez, depois ganiu e recuou. O homem ergueu a mão, um gesto lento e deliberado, apontando para o horizonte enevoado. Segui o gesto com os olhos, mas não vi nada além de mais névoa. Quando olhei de volta, ele havia desaparecido. Sumido, como se o nevoeiro o tivesse dissolvido.
Sacudi a cabeça, atribuindo à ilusão óptica. Talvez fosse um fazendeiro local, ou um turista excêntrico. Voltei para casa, mas o incidente me inquietou pelo resto do dia. À noite, enquanto folheava meus livros de história local, lembrei-me de uma lenda antiga: o "Guardião do Nevoeiro", uma figura espectral que aparecia em tempos de calamidade, acompanhada por um corvo mensageiro da morte. Ridículo, pensei. Superstições de camponeses.
No dia seguinte, o nevoeiro persistia, mais espesso ainda. Os jornais locais – que eu recebia por correio – falavam de um acidente na estrada próxima: um carro capotado, o motorista morto. Ninguém sabia como havia acontecido; não havia marcas de freada, apenas o veículo destruído no meio do nada. Os moradores sussurravam sobre maus presságios. Decidi ignorar e saí novamente para caminhar, desta vez sem Baxter, que se recusava a deixar a casa.
Lá estava ele de novo. No mesmo campo, na mesma pose. O corvo no ombro, imóvel. Meu pulso acelerou. "Ei! Quem é você?", gritei, avançando mais rápido. Desta vez, cheguei mais perto, a uns cinco metros. O ar ao redor dele cheirava a podridão, como carne velha. O capuz se moveu, revelando um vislumbre de rosto: pele pálida, olhos fundos como poços vazios. Ele sussurrou algo, uma palavra ininteligível, e o corvo voou em minha direção, bicando o ar perto do meu rosto antes de retornar ao ombro.
Corri de volta para a vila, o coração martelando. Naquela noite, sonhei com o homem: ele caminhava pelos campos, coletando almas como um ceifador, o corvo guiando-o para os condenados. Acordei suando, o crocitar ecoando em meus ouvidos.
Os dias se arrastaram em um ciclo de névoa e aparições. Toda manhã, eu o via. Às vezes mais longe, às vezes mais perto. O vilarejo começou a mudar. Pessoas adoeciam sem explicação: febres altas, delírios sobre sombras no nevoeiro. Meu vizinho, o velho Sr. Wilkins, morreu em sua cama, os olhos abertos em terror. No enterro, um corvo pousou no caixão, crocitando como se zombasse dos vivos.
Pesquisei mais sobre a lenda. Em um tomo antigo da biblioteca local, encontrei referências ao Guardião: uma entidade amaldiçoada, um homem que, séculos atrás, havia feito um pacto com forças sombrias para escapar da morte. Em troca, ele vagava eternamente, levando almas para equilibrar a balança. O corvo era sua âncora, um familiar que o ligava ao mundo mortal. Dizia-se que quem o via três vezes estava marcado.
Eu o havia visto mais de três vezes. O pânico se instalou. Tentei sair da vila, mas o nevoeiro bloqueava as estradas, como uma barreira viva. Carros paravam, motores falhando. Telefones não funcionavam; a internet caía. Eldridge estava isolada, presa em seu próprio inferno enevoado.
Na quinta aparição, decidi confrontá-lo. Armei-me com uma lanterna e uma cruz de prata – ridículo, eu sabia, mas o desespero me guiava. Caminhei para o campo ao anoitecer, o nevoeiro agora tingido de um cinza escuro. Ele estava lá, esperando. O corvo crocitou, um som que reverberou como risadas distantes.
"Quem é você? O que quer?", gritei.
Ele ergueu a cabeça, e pela primeira vez, vi seu rosto completamente. Não era humano. A pele era como pergaminho esticado sobre ossos, os olhos vazios orbitando em escuridão. "Eu sou o Colecionador", sussurrou, a voz como folhas secas raspando no vento. "E você... você é o próximo."
O corvo voou, circulando ao meu redor. Senti uma fraqueza nas pernas, como se minha vitalidade estivesse sendo sugada. Caí de joelhos, a lanterna rolando na grama. Visões me assaltaram: memórias não minhas, de mortes antigas, de almas gritando no vazio. O Guardião se aproximou, sua mão gelada tocando meu ombro. "Junte-se a nós", murmurou.
Lutei para me levantar, correndo cegamente pelo nevoeiro. Tropecei em raízes, caí em poças, mas continuei. Cheguei à vila ofegante, trancando-me em casa. Baxter latia furiosamente na porta. Aquela noite, o crocitar veio de fora, incessante, como um chamado.
No dia seguinte, o nevoeiro piorou. Mais mortes: uma família inteira encontrada sem vida, expressões de horror congeladas. Os sobreviventes se reuniram na igreja, rezando. Eu me juntei a eles, mas sabia que era inútil. O Guardião não era um demônio bíblico; era algo mais antigo, primordial.
Pesquisei febrilmente em meus livros. Encontrei um ritual: para banir o Guardião, era preciso destruir seu familiar, o corvo. Mas como? Ele parecia imortal, intocável.
Naquela noite, saí armado com uma espingarda velha. O nevoeiro era tão denso que mal via meus pés. Caminhei para o campo, chamando-o. Ele apareceu, como sempre. O corvo crocitou, zombeteiro.
Mirei e atirei. O som ecoou, mas o corvo voou ileso, bicando minha mão. Sangue jorrou. O Guardião riu, um som gutural. "Você não entende. Eu sou o nevoeiro. Eu sou a morte que espera."
Ele se aproximou, e senti minha essência se esvaindo. Visões de Eldridge em ruínas, corpos apodrecendo nos campos. Lutei, mas era tarde. O corvo pousou em meu ombro, seus olhos penetrando minha alma.
Acordei – ou pensei que acordei – no campo, o manto me cobrindo, o capuz sombreando meu rosto. O corvo no ombro, crocitando. O nevoeiro me envolvia como um casulo. Eu era o Guardião agora, vagando, coletando.
Mas isso foi só o começo. Os dias se fundiram em eternidade. Via os vivos como presas, suas almas brilhando no nevoeiro. Eldridge caiu, um vilarejo fantasma. E eu, Thomas Harrow, ou o que restava dele, continuei, o corvo meu único companheiro.
Anos passaram, ou séculos? O mundo mudou, mas o nevoeiro persistia em lugares esquecidos. Agora, eu o vejo: um homem caminhando pelo campo, curioso. Ele se aproxima. O corvo crocita. O ciclo recomeça.
PARTE II
Enquanto vagava como o Guardião, memórias fragmentadas de minha vida anterior me assombravam. Lembrei-me de minha infância em Londres, das ruas movimentadas que contrastavam com o silêncio mortal de Eldridge. Eu havia vindo para cá após a morte de minha esposa, Elizabeth, em um acidente de carro – ironicamente, em uma estrada enevoada. Talvez isso tenha me marcado, tornado-me suscetível à maldição.
No meu novo estado, eu não sentia fome ou cansaço, apenas um vazio insaciável por almas. O corvo, que chamei de Morg, sussurrava em minha mente, guiando-me para as vítimas. "Ali", dizia ele, "uma alma madura para a colheita." Eu seguia, invisível até o momento certo.
Uma noite, encontrei uma jovem, Clara, uma artista que pintava os campos. Ela me viu no nevoeiro, pincel na mão tremendo. "Quem é você?", perguntou, ecoando minhas próprias palavras passadas.
"Eu sou o fim", respondi, minha voz não mais minha. O corvo voou, circulando-a. Ela gritou, mas o nevoeiro abafou. Toquei seu ombro, e sua vida se esvaiu, deixando um corpo vazio.
Mas algo mudou. Em sua alma, vi resistência. Visões dela pintando cenas de horror, como se soubesse de minha existência. Ela havia pesquisado a lenda, desenhado o Guardião. Talvez houvesse uma forma de quebrar o ciclo.
Intrigado, preservei uma faísca de sua essência. Morg crocitou em protesto, mas ignorei. Comecei a questionar: e se o corvo fosse a chave, não para banir, mas para libertar?
Dias se tornaram semanas. Coletei mais almas, mas com relutância crescente. O nevoeiro se espalhava, alcançando vilas vizinhas. Notícias distantes falavam de desaparecimentos misteriosos, doenças inexplicáveis.
Encontrei um velho padre, Father Reynolds, que reconheceu o que eu era. "A maldição do Colecionador", disse ele, cruz na mão. "Você deve destruir o familiar com fogo purificado."
Tentei. Atrai Morg para uma fogueira ritual, mas ele voou, rindo. Em vez disso, o fogo consumiu o padre, sua alma se juntando às minhas.
O desespero cresceu. Lembrei-me de Elizabeth, sua voz ecoando: "Não desista, Thomas." Talvez ela fosse a chave.
Voltei ao local do acidente dela, anos atrás. O nevoeiro era denso lá também. Invoquei memórias, e ela apareceu como um fantasma. "Você se tornou o que temia", disse ela.
"Como parar?", implorei.
"O corvo é sua âncora. Mate-o com sua própria mão, sem armas."
Confrontei Morg. Ele crocitou, bicando minha carne etérea. Agarrei-o, sentindo sua essência pulsando. Apertei, e ele se dissolveu em fumaça negra.
O nevoeiro se dissipou. Caí, humano novamente? Não. Eu me desintegrei, almas libertas.
Mas o ciclo... ah, o ciclo. Um novo Guardião surge. E o corvo renasce.
PARTE III
Vamos aprofundar na história de Eldridge. O vilarejo tinha uma história sombria. Fundado no século XVII por colonos fugindo da peste, eles trouxeram consigo rituais pagãos misturados com cristianismo. O Guardião era, na verdade, o espírito de um druida executado por bruxaria, amaldiçoado a vagar.
Como Thomas, eu investiguei ruínas antigas perto do campo. Encontrei pedras com runas, descrevendo o pacto: imortalidade em troca de almas anuais.
Após a terceira aparição, sofri alucinações. Via o Guardião em espelhos, seu rosto se fundindo ao meu. Baxter morreu, envenenado por algo invisível, seu corpo coberto de penas de corvo.
Na vila, uma assembleia se formou. A prefeita, Sra. Ellis, propôs uma caçada. Armados com tochas, saímos ao nevoeiro. Encontramos o Guardião. Atiramos, mas balas passavam através. Ele tocou um homem, que murchou como uma planta seca.
Fugi, escondendo-me em uma cabana abandonada. Lá, encontrei diários de vítimas passadas. Um padrão: o Guardião escolhe um sucessor, transferindo a maldição.
Entendi: eu era o escolhido. Para sobreviver, precisava passar adiante.
Atrai uma vítima, um viajante perdido. O corvo aprovou. Toquei-o, e a maldição se transferiu. Mas o alívio foi curto. O novo Guardião me caçou, vingativo.
O horror verdadeiro é a eternidade. O nevoeiro retorna, e com ele, a silhueta.
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