Arquivos Selados: O Enigma de Hinterkaifeck
Por
Gustavo José
No coração da Baviera, em uma região marcada pela turbulência econômica e social dos anos pós-Primeira Guerra Mundial, erguia-se a fazenda Hinterkaifeck, um lugar isolado que se tornaria sinônimo de um dos mistérios mais sombrios e persistentes da história criminal alemã. Situada a cerca de 70 quilômetros ao norte de Munique, próxima às pequenas localidades de Kaifeck e Gröbern, a propriedade era um refúgio rural, cercado por florestas densas e campos agrícolas, onde a vida seguia ritmada pelo trabalho árduo e pelo isolamento. No entanto, por trás dessa fachada de tranquilidade campestre, escondiam-se segredos familiares profundos, marcados por violência doméstica, rumores de incesto e uma série de eventos inexplicáveis que culminaram em uma tragédia brutal em 31 de março de 1922. Os assassinatos de Hinterkaifeck, que vitimaram seis pessoas de uma mesma família e sua empregada, permanecem até hoje envoltos em um véu de enigmas, como se os arquivos do caso tivessem sido selados por uma força invisível, resistindo a todas as tentativas de decifração. Apesar de investigações exaustivas, reaberturas de inquéritos e análises modernas, o perpetrador nunca foi identificado, deixando o caso como um eco assombrado do passado, que continua a fascinar investigadores, escritores e entusiastas de crimes reais.
A família Gruber, proprietária da fazenda desde meados do século XIX, era composta por figuras complexas e atormentadas. Andreas Gruber, o patriarca de 63 anos, era conhecido por sua personalidade autoritária e violenta, um homem que governava sua casa com punho de ferro, frequentemente recorrendo a agressões físicas contra esposa, filhos e até vizinhos. Sua esposa, Cäzilia Gruber, de 72 anos, suportava uma existência marcada por submissão e sofrimento, tendo dado à luz vários filhos, dos quais apenas Viktoria sobrevivera à infância, em meio a relatos de abusos que levavam a mortes prematuras, como a de uma filha chamada Sophie, que pereceu após ser trancada em um porão frio durante o inverno. Viktoria Gabriel, de 35 anos, era a filha viúva do casal, cujo marido, Karl Gabriel, havia morrido em combate na França em dezembro de 1914, durante a Grande Guerra, embora seu corpo nunca tenha sido recuperado, o que alimentaria especulações posteriores. Viktoria vivia na fazenda com seus dois filhos pequenos: Cäzilia, de 7 anos, uma menina vivaz que frequentava a escola local, e Josef, de apenas 2 anos, cuja paternidade era objeto de boatos escandalosos na comunidade. Rumores persistentes sugeriam que Josef poderia ser fruto de uma relação incestuosa entre Viktoria e seu próprio pai, Andreas, um escândalo que havia levado a uma condenação judicial anos antes, com Andreas cumprindo um ano de prisão por estupro. Essa dinâmica familiar tóxica era agravada pela reputação de Andreas como um homem recluso e agressivo, que brandia ferramentas agrícolas como armas em disputas, e pela solidão da fazenda, que a tornava vulnerável a intrusos.
Nos meses precedentes aos assassinatos, uma aura de mistério começou a envolver Hinterkaifeck, como se o destino estivesse tecendo uma teia de presságios sombrios. Cerca de seis meses antes, em setembro de 1921, a empregada anterior, Kreszenz Rieger, abandonou abruptamente seu posto, alegando que a casa era assombrada por ruídos estranhos vindos do sótão, como passos e murmúrios que a faziam sentir observada e aterrorizada. Andreas desdenhou essas queixas, mas ele próprio começou a notar anomalias inquietantes. Em março de 1922, encontrou um jornal de Munique na propriedade, um periódico ao qual ninguém da família ou dos vizinhos próximos assinava, sugerindo a presença de um estranho. Uma chave da casa desapareceu misteriosamente, e, dias antes do fatídico 31 de março, Andreas descobriu pegadas frescas na neve, partindo da floresta em direção à porta trancada da casa de máquinas da fazenda, sem qualquer rastro de retorno. Naquela mesma noite, a família ouviu passos no sótão, mas uma busca minuciosa realizada por Andreas não revelou ninguém. Ele confidenciou esses incidentes a vizinhos, mas recusou qualquer ajuda ou notificação à polícia, talvez por orgulho ou medo de expor os segredos da família. No dia 30 de março, uma briga violenta eclodiu entre Viktoria e seus pais, levando-a a fugir para a floresta, onde foi encontrada horas depois por uma amiga da filha. No dia seguinte, 31 de março, chegou a nova empregada, Maria Baumgartner, de 44 anos, escoltada por sua irmã, que a deixou na fazenda e partiu, tornando-se provavelmente a última pessoa a ver a família com vida.
A sequência dos eventos naquela noite fatídica permanece reconstruída por inferências forenses e testemunhos indiretos, pintando um quadro de horror meticulosamente orquestrado. Acredita-se que o assassino, armado com um mattock – uma ferramenta agrícola semelhante a uma picareta, com lâmina em forma de enxada e cinzel, fabricada pelo próprio Andreas para abate de gado –, tenha atraído as vítimas uma a uma para o celeiro, passando pelo estábulo. Primeiro, provavelmente Andreas foi golpeado na cabeça com golpes precisos e letais, seu rosto dilacerado até os ossos da bochecha se projetarem. Em seguida, Cäzilia Gruber, a idosa matriarca, sofreu oito ferimentos no crânio, acompanhados de marcas de estrangulamento. Viktoria foi atacada com nove golpes estelares no lado direito da cabeça, morrendo instantaneamente. A pequena Cäzilia, de 7 anos, foi a que sofreu o destino mais agonizante: seu maxilar foi esmagado, o rosto e o pescoço lacerados por ferimentos circulares, e, embora tenha recebido um golpe fatal na garganta com uma faca de bolso, ela sobreviveu por horas em estado de choque, arrancando tufos de seu próprio cabelo em agonia, com o corpo seminu, sugerindo uma possível tentativa de abuso. Os quatro corpos foram empilhados no celeiro e cobertos com feno e uma porta de madeira velha. O assassino então invadiu a casa principal, onde matou o pequeno Josef com um único golpe no rosto enquanto ele dormia em seu berço, e Maria Baumgartner em sua cama, com cruzamentos de golpes na cabeça. Nada mais foi perturbado: joias, dinheiro e objetos de valor permaneceram intactos, descartando roubo como motivo principal.
O que torna o caso ainda mais perturbador é a evidência de que o assassino não fugiu imediatamente após o massacre, mas permaneceu na fazenda por vários dias, como um fantasma ocupando o lar das vítimas. Os animais foram alimentados e cuidados, o cachorro da família – um pomerânia conhecido por latir para estranhos – foi encontrado amarrado calmamente, a comida da despensa foi consumida, incluindo pão e carne defumada, e fogueiras foram acesas na lareira, com vizinhos relatando fumaça subindo da chaminé nos dias seguintes. Um calendário na cozinha teve a página de 31 de março arrancada, marcando artificialmente o 1º de abril. No dia 1º de abril, vendedores de café bateram à porta sem resposta, notando o portão da casa de máquinas aberto. Às 3 da manhã, um fazendeiro local avistou duas figuras misteriosas na borda da floresta. Um artesão que passou pela propriedade naquela noite sentiu um cheiro estranho de queimado, como trapos incinerados, e foi abordado por alguém com uma lanterna. No dia 4 de abril, um mecânico chamado Albert Hofner chegou para reparar um motor, esperou uma hora sem ver ninguém, ouviu apenas os animais e o uivo do cachorro no celeiro, e partiu após concluir o trabalho.
A descoberta dos corpos ocorreu apenas em 4 de abril de 1922, por volta das 15h30, quando a ausência da família começou a alarmar a comunidade. A pequena Cäzilia faltara à escola nos dias 1º e 3 de abril, sem justificativa, e a família não comparecera à igreja no domingo, onde Viktoria cantava no coro. Correio acumulara no posto local. Lorenz Schlittenbauer, um vizinho e ex-amante de Viktoria, que alegava ser o pai de Josef e havia brigado com Andreas por questões de apoio financeiro, enviou seus filhos para verificar a propriedade, mas eles voltaram sem novidades. Schlittenbauer então foi pessoalmente, acompanhado por Michael Pöll e Jakob Sigl. Eles arrombaram o celeiro e depararam-se com os quatro corpos empilhados. Schlittenbauer, usando uma chave que supostamente havia desaparecido dias antes, entrou sozinho na casa e encontrou Maria e Josef. Seu comportamento foi notado como estranho: manipulou os corpos sem repulsa, referindo-se a Josef como "meu filho" e perturbando a cena do crime antes da chegada da polícia.
A investigação, liderada pelo inspetor Georg Reingruber da polícia de Munique, foi marcada por falhas iniciais que comprometeram evidências cruciais. A autópsia, realizada no celeiro pelo médico Johann Baptist Aumüller em 5 de abril, confirmou o mattock como arma, encontrado escondido em uma cavidade no sótão da cozinha. Uma faca de bolso foi achada no feno do celeiro. Os crânios das vítimas foram removidos e enviados para Munique para exames adicionais, incluindo tentativas de análise por clarividentes, mas foram perdidos durante a Segunda Guerra Mundial, impossibilitando testes de DNA modernos. Evidências no sótão sugeriam que alguém havia vivido ali: pilhas de feno arrumadas como cama, telhas removidas para vigia, um tapete para abafar passos, cordas para descida rápida, fezes humanas e cascas de carne defumada. A polícia interrogou dezenas de suspeitos, incluindo vagabundos, artesãos itinerantes e vizinhos, mas o fato de o assassino ter permanecido na fazenda indicava familiaridade com a rotina agrícola e possivelmente um motivo pessoal. O caso foi encerrado em 1955 sem acusações, com uma última revisão em 1986 por um detetive aposentado.
Entre os suspeitos principais, Lorenz Schlittenbauer despontava como o mais controverso. Seu relacionamento com Viktoria, a alegação de paternidade de Josef e brigas com Andreas por dinheiro o colocavam no centro das suspeitas. Seu comportamento na descoberta – manipulando corpos e usando a chave perdida – e comentários posteriores, como uma observação em 1925 sobre o solo congelado dificultando enterros, sugeriam conhecimento insider. Ele ganhou ações por difamação contra quem o acusava, mas morreu em 1941 sem confissão. Outro nome era Karl Gabriel, o marido falecido de Viktoria, especulado como sobrevivente da guerra, motivado por vingança ao descobrir o incesto; relatos pós-guerra de prisioneiros alemães na União Soviética mencionavam um oficial que se gabava de ser o assassino de Hinterkaifeck, possivelmente ele. No entanto, sua morte em 1914 foi confirmada por companheiros. Outros incluíam os irmãos Thaler, conhecidos por roubos locais, que sondaram a empregada anterior sobre dinheiro escondido; os irmãos Bichler, que trabalhavam na fazenda e conheciam o layout; e Georg Siegl, um ex-empregado que invadiu a casa em 1920. Um estranho não identificado parou um residente em 1927, confessando ser o assassino antes de fugir para a floresta.
As teorias sobre o enigma variam de vingança pessoal a elementos mais especulativos. Uma sugere que Andreas, enlouquecido ao descobrir que Josef não era seu filho, mas de Schlittenbauer, matou a família em fúria, abusando da neta antes de ser morto acidentalmente por Schlittenbauer, que encobriu o crime. Outra, proposta pelo autor Bill James, liga o caso a Paul Mueller, um imigrante alemão suspeito de assassinatos em massa com machados nos Estados Unidos, incluindo o de Villisca em 1912, sugerindo que ele retornou à Alemanha e cometeu o crime similar. Elementos sobrenaturais, como os ruídos no sótão e a sensação de assombração, alimentam lendas de fantasmas ou maldições, embora sejam descartados por investigadores. Em 2007, alunos da Academia de Polícia de Fürstenfeldbruck revisaram o caso e identificaram um suspeito provável, mas mantiveram o nome em sigilo por respeito a parentes vivos, selando ainda mais os arquivos.
O enigma de Hinterkaifeck persiste como um testamento à fragilidade da justiça humana, um caso onde o tempo e a perda de evidências conspiraram para preservar o segredo. A fazenda foi demolida em 1923, e o local tornou-se um ponto de peregrinação para curiosos, que deixam flores em memória das vítimas. Inspirando livros, documentários e filmes, como o thriller alemão de 2009, o mistério ainda ecoa, nos lembrando que alguns arquivos do passado permanecem irremediavelmente selados, aguardando uma chave que talvez nunca seja encontrada.
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