As Origens Ocultas do Terror nos Quadrinhos
Por
Gustavo José
Terror Total é o seu refúgio para explorar as sombras mais profundas da cultura do medo. Hoje, mergulhamos em um tema que entrelaça a arte sequencial com o mistério do invisível: as origens ocultas do terror nos quadrinhos. Quando falamos de origens ocultas, não nos referimos apenas à história visível das publicações, mas às influências subterrâneas, aos ecos de antigas crenças esotéricas, mitos proibidos e práticas místicas que moldaram o gênero. Os quadrinhos de terror não surgiram do nada; eles bebem de fontes antigas, como rituais ancestrais e lendas esquecidas, transformando o papel e a tinta em portais para o desconhecido. Ao longo deste texto, vamos desvendar como o oculto se infiltrou nas páginas ilustradas, desde os primórdios até as expressões modernas, revelando um legado que continua a assombrar leitores ao redor do mundo.
Para entender essas origens, precisamos voltar no tempo, muito antes dos super-heróis dominarem as bancas. As raízes do terror nos quadrinhos remontam a formas primitivas de narrativa visual. No século XII, no Japão da era Heian, o pergaminho Gaki Zoshi, ou Pergaminho dos Fantasmas Famintos, retratava espíritos sobrenaturais devorando almas, uma representação sequencial que misturava horror com elementos espirituais budistas. Esses fantasmas, conhecidos como gaki, eram almas atormentadas por pecados passados, um conceito que ecoa o karma e o além-vida, influências ocultas que mais tarde inspirariam mangás de terror. Da mesma forma, nos códices mixtecas do século XVI, no México pré-colombiano, imagens de deuses sombrios e sacrifícios humanos contavam histórias de forças invisíveis controlando o destino mortal. Essas narrativas antigas não eram meras ilustrações; elas invocavam o medo do invisível, do que escapa à compreensão humana, plantando as sementes para o que viria a ser o terror ilustrado.
Avançando para o século XX, o pulso do terror nos quadrinhos bateu forte nos magazines pulp americanos da década de 1930. Publicações como Dime Mystery, Horror Stories e Terror Tales introduziram o subgênero weird menace, com vilões sádicos, torturas gráficas e toques sobrenaturais inspirados no teatro Grand Guignol francês, conhecido por suas encenações macabras. Aqui, o oculto já se manifestava: histórias de cultos secretos, possessões demoníacas e maldições antigas, frequentemente baseadas em folclore europeu e mitos indígenas. Autores como H.P. Lovecraft, com seu horror cósmico, influenciaram indiretamente esses pulps, descrevendo entidades além da sanidade humana, como os Grandes Antigos em contos como A Cor Que Caiu do Céu. Lovecraft, embora não tenha escrito quadrinhos diretamente, tornou-se uma força oculta no gênero, com suas ideias de insignificância cósmica e terror primordial se infiltrando em adaptações futuras.
Nos anos 1940, os quadrinhos propriamente ditos começaram a absorver essas influências. O primeiro quadrinho dedicado ao terror foi Eerie número 1, publicado pela Avon Publications em 1947, com histórias originais envolvendo fantasmas, zumbis e lagartos devoradores de homens. Artistas como Joe Kubert contribuíram com narrativas que evocavam o oculto, como rituais vodu e aparições espectrais. Antes disso, elementos de horror apareciam em revistas de super-heróis, como em New Fun Comics número 6, de 1935, onde Doctor Occult, criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, enfrentava um Mestre Vampiro. Doctor Occult, um detetive paranormal, incorporava o arquétipo do investigador do sobrenatural, inspirado em figuras reais como Aleister Crowley, o mago britânico cujas práticas ocultas de Thelema – uma filosofia mística enfatizando a vontade individual e entidades espirituais – ecoavam em personagens que lidavam com demônios e dimensões alternativas.
O boom do terror nos quadrinhos ocorreu entre o final dos anos 1940 e meados dos 1950, impulsionado pela EC Comics, sob a direção de William Gaines. Títulos como Tales from the Crypt, The Vault of Horror e The Haunt of Fear transformaram o gênero em antologias com finais twist e justiça poética, apresentadas por anfitriões sarcásticos como o Guardião da Cripta. Essas histórias frequentemente mergulhavam no oculto: vampiros sedentos por sangue, ghouls devoradores de cadáveres e maldições hereditárias que puniam os pecadores. A influência de Edgar Allan Poe era evidente, com adaptações de O Coração Delator e O Poço e o Pêndulo, onde o terror psicológico se misturava a elementos góticos como sepulturas vivas e vinganças espectrais. Mas o oculto ia além: artistas como Graham Ingels, apelidado de Ghastly, desenhavam cenas de decomposição e possessão que evocavam rituais de necromancia, práticas antigas de invocar os mortos descritas em grimórios medievais como o Necronomicon fictício de Lovecraft.
Outras editoras seguiram o exemplo, incorporando temas esotéricos. A Atlas Comics, precursora da Marvel, publicou Adventures into Terror e Menace, com monstros inspirados em lendas folclóricas e mitos ocultos, como lobisomens ligados a ciclos lunares e simbolismos astrológicos. A Warren Publishing, com Creepy e Eerie nos anos 1960, evitou a censura produzindo revistas em preto e branco, permitindo narrativas mais ousadas sobre vampiras sedutoras como Vampirella, que misturavam erotismo com sangue e rituais pagãos. Vampirella, criada por Forrest J. Ackerman, era uma alienígena vampírica de um planeta chamado Drakulon, mas suas aventuras terrenas invocavam cultos satânicos e dimensões infernais, refletindo o interesse crescente pelo satanismo na cultura pop, influenciado pelo Church of Satan de Anton LaVey.
A censura dos anos 1950 representou um capítulo sombrio nas origens do terror nos quadrinhos, revelando medos sociais ocultos. O psiquiatra Fredric Wertham, em seu livro Sedução dos Inocentes, de 1954, acusou as HQs de promoverem delinquência juvenil, citando imagens de violência e temas ocultos como causas de desvios morais. Ele via simbolismos escondidos, como sadismo em capas de revistas e até homossexualidade implícita em duplas como Batman e Robin. As audiências no Senado americano, lideradas por Estes Kefauver, compararam os quadrinhos a propaganda nazista, levando à criação do Comics Code Authority, que baniu cenas de vampiros, ghouls e depravação. Isso forçou o gênero a se esconder, mas não o extinguiu; em vez disso, ele se transformou, com influências ocultas migrando para revistas não reguladas ou para o underground.
O renascimento veio nos anos 1970, com a revisão do Código permitindo figuras clássicas do oculto, como Drácula e Frankenstein, desde que tratadas de forma literária. A Marvel lançou Tomb of Dracula, com o conde vampiro em batalhas contra caçadores, incorporando lendas romenas e simbolismos cristãos invertidos. Ghost Rider, criado por Gary Friedrich, era um motociclista possuído por um demônio, ecoando pactos faustianos e o mito do cavaleiro sem cabeça. Na DC, Swamp Thing, reimaginado por Alan Moore nos anos 1980, transformou o monstro em uma entidade elemental ligada à natureza mística, explorando temas de ecologia ocultista e reencarnação. Moore, um praticante declarado de magia cerimonial, infundiu suas obras com esoterismo real: em Swamp Thing, o personagem viaja por planos astrais e enfrenta demônios, inspirado em conceitos como o Plano Astral de Madame Blavatsky e a Teosofia.
Alan Moore é uma figura central nas origens ocultas do terror nos quadrinhos. Sua graphic novel From Hell, ilustrada por Eddie Campbell, investiga os assassinatos de Jack, o Estripador, ligando-os a conspirações maçônicas e rituais ocultos da Ordem da Aurora Dourada, uma sociedade secreta do século XIX que incluía Crowley. Moore usa a narrativa para explorar a magia como uma ferramenta narrativa, onde o tempo e o espaço se dobram em visões proféticas. Da mesma forma, em Promethea, ele mistura super-heróis com cabala e tarô, revelando como o oculto pode ser uma metáfora para a criação artística. Grant Morrison, outro autor britânico, segue essa linha em The Invisibles, uma série que funde anarquia com magia do caos, influenciada por suas próprias experiências com sigilos e invocações. Morrison descreve os quadrinhos como feitiços em papel, capazes de alterar a realidade do leitor.
Neil Gaiman contribuiu com Sandman, uma saga que reescreve mitos ocultos. O protagonista, Sonho, é um dos Eternos, entidades que governam aspectos da existência humana, como Morte e Desejo. Gaiman tece referências a deuses pagãos, anjos caídos e o Livro dos Mortos egípcio, criando um universo onde o oculto é cotidiano. Episódios como A Casa de Bonecas exploram cultos secretos e possessões, enquanto o arco Estação das Névoas envolve negociações com demônios luciferianos. Sandman influenciou o selo Vertigo da DC, que abrigou Hellblazer, estrelado por John Constantine, um mago cínico que usa exorcismos, sigilos e conhecimento de grimórios para combater forças infernais. Constantine, inspirado em Sting visualmente, incorpora o arquétipo do occult detective, visto em personagens como Doctor Occult, e reflete o revival do interesse pelo ocultismo nos anos 1980, impulsionado por livros como O Satanista de Dennis Wheatley.
No cenário global, as origens ocultas se manifestam de formas únicas. No Japão, mangás de terror como os de Kazuo Umezu e Shigeru Mizuki bebem de yokai, espíritos folclóricos japoneses, que representam forças ocultas da natureza. Junji Ito, mestre moderno, em obras como Uzumaki, transforma espirais em maldições cósmicas, ecoando Lovecraft com horror inexplicável. Na Itália, o fumetto nero dos anos 1960, como Satanik e Jacula, misturava erotismo com satanismo, com heroínas vampíricas envolvidas em rituais pagãos, influenciadas pelo cinema giallo e lendas medievais. Dylan Dog, criado por Tiziano Sclavi, é um investigador paranormal que enfrenta monstros e conspirações ocultas, vendendo milhões e inspirando adaptações.
No Brasil, o terror nos quadrinhos tem raízes nos pulps dos anos 1930, com publicações como Terror Tales adaptadas localmente. Editoras como La Selva produziram revistas como Sobrenatural e Calafrio, com histórias de cultos indígenas e macumba, misturando folclore africano-brasileiro com horror ocidental. Autores como André Le Blanc e Flavio Colin incorporaram elementos ocultos, como em As Aventuras do Anjo, onde anjos e demônios lutam em cenários místicos. Mais recentemente, Locke & Key, de Joe Hill e Gabriel Rodriguez, explora chaves mágicas que abrem portas para dimensões ocultas, refletindo simbolismos alquímicos.
Mike Mignola, com Hellboy, cria um universo rico em oculto: o protagonista, um demônio invocado por nazistas durante a Segunda Guerra, luta contra forças lovecraftianas e folclore europeu, como Baba Yaga e Rasputin. O Bureau for Paranormal Research and Defense investiga artefatos místicos, ecoando sociedades secretas reais como a Thule Society, que influenciou o nazismo com ideias arianas ocultas. Hellboy funde mitologia com terror, mostrando como o oculto pode ser uma lente para examinar o mal humano.
Essas origens ocultas não são meras curiosidades; elas revelam como os quadrinhos de terror servem como espelho para nossos medos coletivos. Em tempos de incerteza, como a Guerra Fria ou pandemias modernas, temas de possessão e apocalipses cósmicos ganham relevância, como em The Walking Dead, de Robert Kirkman, onde zumbis simbolizam o colapso social, mas com toques sobrenaturais em spin-offs. O oculto persiste porque é inerente ao humano: a busca pelo proibido, o fascínio pelo além.
No Terror Total, acreditamos que entender essas origens enriquece o medo. Os quadrinhos não são só entretenimento; são grimórios modernos, invocando sombras que nos fazem questionar a realidade. Da próxima vez que folhear uma HQ de terror, lembre-se: por trás das vinhetas, há segredos ocultos esperando para serem desvendados. Até a próxima imersão nas trevas.
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