Um homem enfrenta um espelho amaldiçoado que reflete rostos assustadores, levando-o a uma jornada de medo e dúvida sobre sua sanidade

Por Gustavo José
Era uma noite úmida de outubro, o tipo de noite em que o ar parece carregar segredos antigos, como se as paredes da casa sussurrassem memórias que ninguém ousava lembrar. Eu estava de volta à casa da minha infância, um lugar que eu evitara por anos, chamado de volta pelas mãos invisíveis do destino após a morte de minha tia. A casa, erguida em 1920, parecia congelada no tempo, com seus corredores estreitos, móveis cobertos por lençóis e o cheiro persistente de mofo. Mas nada me preparou para o que encontrei no banheiro do segundo andar.

O espelho era o centro de tudo. Enquadrado em madeira escura e desgastada, refletia mais do que apenas minha imagem. Quando me aproximei, lavando as mãos no velho lavatório de cerâmica rachada, algo mudou. Meu reflexo — o homem de camisa escura, cabelo castanho desarrumado e olhos cansados — não era mais apenas meu. No vidro, uma figura diferente me encarava. Um rosto pálido, quase translúcido, com olhos fundos e um sorriso que não pertencia a este mundo. Era como se a superfície do espelho tivesse se tornado uma janela para outro lugar, um lugar onde a luz não chegava.

Congelei, as gotas d’água escorrendo dos meus dedos e caindo no silêncio opressivo. O homem no espelho não se movia como eu. Enquanto eu inclinava a cabeça, ele permanecia imóvel, aquele sorriso fixo, quase cruel. Tentei me convencer de que era apenas um truque de luz, uma ilusão causada pela exaustão da longa viagem. Mas quando pisquei, ele piscou de volta — não no mesmo ritmo, mas com uma lentidão deliberada, como se me estudasse.

Respirei fundo e me afastei, o coração batendo descompassado. Decidi ignorar o incidente, atribuindo-o a minha imaginação hiperativa. Afinal, eu estava em uma casa cheia de sombras e histórias que minha tia contava em sussurros — histórias de um passado que ela nunca explicava completamente. Mas à medida que a noite avançava, o espelho tornou-se uma presença constante em meus pensamentos. Eu podia sentir seus olhos me seguindo, mesmo quando estava no quarto ao lado, tentando dormir em uma cama que rangia a cada movimento.

Na manhã seguinte, decidi investigar. Abri as gavetas da cômoda da tia, encontrando cartas amareladas, fotografias em preto e branco e um diário encadernado em couro. As páginas estavam cheias de anotações desordenadas, escritas com uma caligrafia trêmula. A maioria falava de sonhos inquietantes, mas uma passagem me fez parar: “Ele está no espelho. Não ouse olhar por muito tempo, ou ele te verá de volta.” Meu estômago se revirou. Será que ela também o vira? Será que era por isso que ela evitava aquele banheiro, preferindo uma bacia de água no quarto?

Com o diário nas mãos, voltei ao banheiro. A luz do dia entrava fraca pelas janelas empoeiradas, mas o ambiente ainda parecia carregado de uma energia estranha. Fiquei diante do espelho novamente, hesitante. Desta vez, decidi enfrentá-lo. Olhei diretamente para meu reflexo, esperando o homem pálido reaparecer. Por um momento, tudo parecia normal. Então, os cantos da minha boca se ergueram no vidro, formando aquele sorriso terrível que não era meu. Gritei e recuei, derrubando o diário no chão.

O som ecoou pelas paredes, mas o espelho permaneceu silencioso, como se zombasse da minha fraqueza. Peguei o diário e corri para a cozinha, onde a luz era mais forte. Li mais páginas, descobrindo que minha tia acreditava que o espelho era amaldiçoado, trazido para a casa por um parente distante que praticava rituais obscuros. Ela descrevia como, ao longo dos anos, ele começava a “refletir almas”, mostrando rostos que não pertenciam aos vivos. Alguns, ela dizia, eram inofensivos; outros, como o que eu vi, pareciam famintos por algo — talvez atenção, talvez algo mais sombrio.

Decidi que não podia ficar ali. Peguei minhas coisas e saí, deixando a casa para trás, mas o espelho não me deixou em paz. Naquela noite, em um hotel a cinquenta quilômetros dali, sonhei com ele. No sonho, eu estava novamente no banheiro, mas o espelho era maior, ocupando toda a parede. O homem pálido saiu do vidro, estendendo as mãos em minha direção. Acordei suando, o coração acelerado, e percebi que algo estava errado. Havia um espelho no quarto do hotel, pequeno, sobre a cômoda. Aproximei-me com cautela e, por um instante, jurei ver aquele sorriso novamente, antes de a luz da rua apagar a ilusão.

Nos dias seguintes, consultei especialistas em antiguidades e ocultismo. Um deles, um velho professor de história local, confirmou que espelhos eram às vezes usados em rituais para capturar fragmentos de almas ou refletir o que estava além do véu. Ele sugeriu que o espelho da casa poderia ter sido intencionalmente encantado, talvez como uma espécie de portal. Disse que destruí-lo poderia libertar o que estava preso, mas também poderia trazer consequências imprevisíveis. Eu não sabia o que fazer. Voltar à casa parecia arriscado, mas ignorar o problema parecia covardia.

Uma semana depois, decidi enfrentar meu medo. Voltei à casa com uma marreta, determinado a quebrar o espelho. O ar estava pesado quando entrei, como se a casa soubesse o que eu pretendia. Subi as escadas, o som dos meus passos ecoando no silêncio. No banheiro, o espelho me esperava, imponente. Levantei a marreta, mas antes que pudesse golpeá-lo, o reflexo mudou. O homem pálido não estava mais sozinho. Havia outros rostos atrás dele, todos com os mesmos sorrisos perturbadores, como uma multidão invisível pressionando o vidro.

Minha mão tremia. Senti um frio subir pela espinha, e uma voz — não minha, mas dentro da minha cabeça — sussurrou: “Você não pode nos apagar.” Soltei a marreta, que caiu com um estrondo. Corri para fora da casa, deixando tudo para trás, incluindo o diário e a marreta. Não olhei para trás, mas senti que os olhos do espelho me seguiam, atravessando paredes e distância.

Agora, estou em outro lugar, tentando reconstruir minha vida. Evito espelhos sempre que possível, usando a câmera do celular para me barbear ou arrumar o cabelo. Mas à noite, quando o silêncio se instala, sinto que ele ainda está lá, esperando. Talvez seja paranoia, talvez seja real. O que sei é que o espelho da noite não foi destruído, e algo me diz que, mais cedo ou mais tarde, nossos caminhos se cruzarão novamente.

Por Gustavo José