Origens Antigas: Das Tradições Judaicas ao Cristianismo Primitivo

Por Gustavo José

Nas antigas tradições judaicas, as concepções de entidades espirituais adversas emergem de forma sutil nos textos sagrados mais antigos, entrelaçando-se com narrativas cosmológicas e morais que moldaram visões sobre o mundo invisível. No Tanakh, por exemplo, há menções a forças que personificam o mal ou o caos, como em passagens que aludem a espíritos que habitam desertos ou regiões selvagens, influenciando a vida humana de maneiras perturbadoras. Essas entidades não são retratadas como uma criação divina direta, mas como remanescentes de um ordem cósmica onde o bem e o mal coexistem em tensão constante. Uma das primeiras referências aparece no Livro de Deuteronômio, onde se adverte contra o culto a figuras que poderiam ser interpretadas como espíritos errantes, sugerindo que tais seres eram parte do imaginário religioso dos povos vizinhos, como os cananeus e babilônios, e que os israelitas os incorporaram em suas próprias narrativas para enfatizar a exclusividade da adoração ao único Deus. Esses espíritos, conhecidos em hebraico como shedim, são descritos como habitantes de ruínas ou lugares isolados, capazes de causar dano ou doença, mas sem uma estrutura organizada explícita nos textos canônicos iniciais. Em vez disso, eles representam uma ameaça periférica, um eco de mitos mesopotâmicos onde deuses menores ou seres híbridos governavam aspectos da natureza e do infortúnio humano.

À medida que as tradições evoluíram durante o período do Segundo Templo, influenciadas por contatos com culturas persas e helenísticas, essas noções ganharam maior complexidade. Textos apócrifos e pseudepígrafos, como o Livro de Enoque, expandiram o entendimento dessas forças, introduzindo narrativas sobre anjos que desceram à terra, desafiando a ordem divina. Nesse livro, compilado entre os séculos III e I a.C., descreve-se um grupo de anjos celestiais, chamados de vigilantes, que observavam a humanidade do alto. Liderados por figuras como Semihazah e Azazel, eles se rebelaram ao se unir com mulheres mortais, gerando descendentes gigantescos conhecidos como nefilins. Essa união não era apenas um ato de desobediência; ela simbolizava a corrupção da pureza celestial pela matéria terrena, resultando em uma proliferação de violência e conhecimento proibido na terra. Os vigilantes ensinaram aos humanos artes como a metalurgia, a astrologia e a fabricação de armas, o que acelerou o declínio moral da humanidade, levando ao dilúvio como punição divina. Aqui, surge uma ideia implícita de organização entre esses seres caídos: Semihazah atua como o chefe de duzentos vigilantes, divididos em grupos de dez, cada um com um líder subordinado, como Arakiba, Rameel e Kokabiel. Azazel, por sua vez, é destacado por ensinar segredos de guerra e beleza, tornando-se uma figura central na transmissão de saberes que desequilibram o mundo. Essa narrativa não apenas explica as origens do mal como uma rebelião celestial, mas também sugere que os espíritos resultantes dessa queda – os descendentes ou as almas dos nefilins – persistem como forças malignas, assombrando a humanidade após o dilúvio. Outros textos, como o Livro dos Jubileus, reforçam essa visão, atribuindo aos espíritos dos gigantes uma existência pós-dilúvio, onde eles continuam a instigar o pecado, mas sob o controle parcial de um anjo superior como Mastema, que pede permissão divina para manter uma fração deles ativos na terra.

Essas ideias refletem influências zoroástricas, onde o dualismo entre forças do bem e do mal é mais pronunciado, com um príncipe das trevas oposto ao deus da luz. No judaísmo helenístico, figuras como Belial emergem como antagonistas principais, representando a oposição ao plano divino, especialmente em manuscritos de Qumran, como os Pergaminhos do Mar Morto. Ali, Belial é retratado como o líder de um exército de espíritos das trevas, engajado em uma guerra cósmica contra os filhos da luz. Essa dicotomia não é absoluta, pois mesmo Belial opera sob a soberania divina, mas indica uma crescente percepção de camadas entre esses seres: líderes como Belial ou Mastema comandam hordas de espíritos menores, responsáveis por tentações específicas, como doenças, loucura ou idolatria. Em tradições rabínicas posteriores, mas enraizadas nesse período, entidades como Asmodeus ganham proeminência, descrito no Livro de Tobias como um ser que mata maridos de uma mulher, sugerindo uma especialização em ciúme e destruição matrimonial. Agrath bat Mahalath, por sua vez, é vista como uma entidade feminina que comanda milhares de atendentes, vagando pelo ar e causando dano noturno, ecoando mitos sumérios de succubi. Essas figuras ilustram uma diversificação: não meros espíritos anônimos, mas seres com nomes, domínios e relações de subordinação, formando uma rede invisível que interfere na vida cotidiana.

A transição para o cristianismo primitivo incorporou e transformou essas tradições judaicas, adaptando-as à mensagem de salvação através de Jesus. No Novo Testamento, essas entidades malignas são apresentadas de forma mais direta e confrontacional, refletindo o contexto de um mundo helenístico onde crenças em daimones – espíritos intermediários – eram comuns. Nos Evangelhos Sinóticos, Jesus é retratado como um exorcista que expulsa espíritos impuros de pessoas possuídas, demonstrando autoridade sobre eles. Por exemplo, no relato de Marcos sobre o homem gadareno, um espírito chamado Legião – implicando uma multidão organizada – habita um indivíduo, suplicando para não ser enviado ao abismo, mas para entrar em porcos. Essa passagem sugere não apenas multiplicidade, mas uma coesão coletiva sob um nome unificador, ecoando as hordas de vigilantes do Livro de Enoque. Satanás, mencionado no Antigo Testamento como um acusador celestial, evolui para um adversário principal no Novo Testamento, como em Mateus, onde tenta Jesus no deserto, ou em Lucas, onde entra em Judas para trair o mestre. Aqui, Satanás não é um rebelde isolado, mas o chefe de um reino oposto ao de Deus, com anjos sob seu comando, como aludido em Judas e 2 Pedro, que referenciam anjos acorrentados no escuro aguardando julgamento, ligando diretamente ao mito dos vigilantes.

Paulo, em suas epístolas, aprofunda essa visão, descrevendo o mundo como palco de uma luta contra principados e potestades, forças espirituais nas regiões celestiais que governam aspectos do mal. Em Efésios, ele fala de um príncipe do poder do ar, sugerindo uma autoridade delegada sobre o ar e a terra, com subordinados que influenciam nações e indivíduos. Essa linguagem reflete influências helenísticas, onde daimones podiam ser bons ou maus, mas no cristianismo, eles são uniformemente malignos, derivados dos anjos caídos. Os Atos dos Apóstolos reforçam isso, com episódios como o de Simão, o Mago, ou a escrava com espírito de adivinhação, mostrando que esses seres conferem poderes falsos, mas são subjugados pelo nome de Jesus.

Os Pais da Igreja primitiva, como Justino Mártir no século II, elaboraram essas ideias, afirmando que os deuses pagãos eram na verdade esses espíritos caídos, enganando a humanidade através de mitos e rituais. Justino liga os daimones gregos aos anjos rebeldes de Gênesis 6, argumentando que seus descendentes, os nefilins, pereceram no dilúvio, mas seus espíritos persistem como demônios, invejando os humanos e promovendo idolatria. Tertuliano, em sua Apologia, descreve uma hierarquia onde Satanás é o arqui-inimigo, com anjos caídos como seus tenentes, cada um responsável por tentações específicas: alguns incitam à luxúria, outros à violência, refletindo a especialização vista em tradições judaicas. Ele enfatiza que esses seres, embora poderosos, são limitados pela vontade divina e podem ser expulsos através da fé cristã.

Orígenes, no século III, oferece uma perspectiva mais filosófica, influenciada pelo platonismo. Em Contra Celso, ele discute como os anjos caídos, ao se unirem à matéria, geraram uma progênie espiritual que habita o ar, organizada em ranks baseados em sua proximidade com o mal. Orígenes sugere que Satanás lidera uma monarquia invertida, com príncipes demoníacos governando regiões geográficas ou aspectos da psique humana, como o orgulho ou a ira. Essa visão ecoa Paulo, mas adiciona camadas: os espíritos mais elevados na rebelião comandam legiões menores, formando uma paródia da corte celestial. Atanásio, em sua Vida de Antônio, retrata o eremita confrontando esses seres em visões, onde eles aparecem em formas variadas – de animais a humanos – revelando uma adaptabilidade que mascara sua estrutura subjacente.

Ireneu de Lião, combatendo gnosticismo, afirma que o diabo e seus anjos foram criados bons, mas caíram por inveja, estabelecendo um reino temporário na terra. Ele descreve o diabo como o deus deste mundo, com uma corte de anjos apóstatas que imitam a Trindade divina em uma trindade maligna. Essa ideia de imitação sugere uma organização paralela: assim como Deus tem arcanjos, o adversário tem seus príncipes, cada um com domínios específicos. Nos escritos de Clemente de Alexandria, há ênfase na origem desses seres como anjos que escolheram o mal, formando alianças que perpetuam o caos até o julgamento final.

À medida que o cristianismo se consolidava, essas concepções influenciaram rituais como o batismo, onde renúncias ao diabo e suas pompas indicavam reconhecimento de uma rede organizada de oposição espiritual. Os concílios primitivos, embora focados em doutrinas trinitárias, implicitamente assumiam essa realidade, com exorcismos como parte da preparação catequética. Figuras como Cipriano de Cartago descrevem epidemias e perseguições como obra desses espíritos coordenados, sugerindo uma estratégia coletiva contra a igreja nascente.

Essa evolução das tradições judaicas para o cristianismo primitivo reflete uma adaptação cultural: do shedim periférico ao vigilante rebelde, e dali ao demônio organizado sob Satanás. No judaísmo, o foco era na soberania divina sobre todas as forças; no cristianismo, enfatiza-se a vitória de Cristo sobre elas, transformando o medo em esperança. Textos como o Apocalipse de João culminam essa visão, com o dragão e seus anjos sendo lançados à terra, liderando uma batalha final contra os fiéis. Assim, essas narrativas não apenas explicam o mal presente, mas projetam um futuro onde a ordem divina prevalece.

Expandindo sobre as influências persas, durante o exílio babilônico, os judeus encontraram conceitos de Ahriman, o espírito maligno oposto a Ahura Mazda, o que pode ter moldado a personificação de Satanás como adversário. No Livro de Jó, Satanás atua como promotor celestial, testando a fidelidade, mas sem rebelião explícita; é nos textos intertestamentários que ele ganha independência. Zacarias menciona Satanás acusando o sumo sacerdote, mas é repreendido por Deus, indicando subordinação.

No cristianismo, Pedro compara o diabo a um leão rugindo, buscando devorar, enquanto Tiago exorta a resistir-lhe para que fuja. Essa dinâmica sugere não uma igualdade com Deus, mas uma autoridade limitada, com anjos caídos como aliados em uma guerra espiritual. Os Pais da Igreja, como Basílio, o Grande, no século IV, descrevem esses seres como invejando a salvação humana, organizando-se para impedir a ascensão espiritual.

Em resumo, das raízes judaicas onde espíritos errantes simbolizavam o caos, à elaborada cosmologia cristã primitiva de rebelião celestial e redenção, essas concepções formam um tapeçaria rica, influenciando teologia, liturgia e cultura. 

Imagem em destaque: Gustavo José, criada com auxílio de IA.