O Caso Roswell e a Sombra que se Estendeu até Varginha
Por
Gustavo José
Em 1947, na poeirenta cidade de Roswell, Novo México, nasceu o maior mito ufológico moderno. O episódio, contudo, não é uma singularidade histórica. Quase meio século depois e em outro continente, a cidade mineira de Varginha viveu um incidente com ecos inquietantemente familiares, a ponto de ser carimbada como o "Roswell brasileiro". Uma análise comparativa revela um roteiro repetido de eventos extraordinários, intervenção estatal e um véu de desconfiança que perdura por décadas.
Roswell (1947): O Marco Zero da Ufologia Moderna
O caso se iniciou com o fazendeiro William Mac Brazel, que encontrou estranhos destroços espalhados por seu rancho. A notícia, publicada de forma explosiva pelo Roswell Daily Record, anunciava a captura militar de um "disco voador". A euforia, porém, foi breve. Em poucos dias, a narrativa oficial foi completamente reformulada: tratava-se meramente de um balão meteorológico do Projeto Mogul, um projeto secreto de detecção de testes nucleares soviéticos.
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| Manchete sobre o disco voador capturado em Roswell – Imagem: Reprodução |
A virada veio décadas depois, quando pesquisadores como o físico nuclear Stanton T. Friedman localizaram e entrevistaram o major Jesse Marcel, o oficial de inteligência que primeiro recolheu os destroços. Marcel revelou, de forma categórica, que os materiais eram de natureza inexplicável e que a explicação do balão foi uma encenação forçada pelo alto comando. Seu relato reacendeu o caso, transformando-o de um incidente esquecido em uma pedra fundamental da crença em um acobertamento governamental sobre visitantes extraterrestres.
Varginha (1996): O "Roswell Tropical"
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| Retrato do ET de Varginha feito pelo 'Fantástico' em 1996; à direita, Liliane, Valquíria e Kátia mostram onde viram a estranha criatura - Divulgação/YouTube/TV Globo e Polícia Militar |
Em 20 de janeiro de 1996, três jovens – Liliane, Valquíria e Kátia – relataram um encontro aterrorizante em Varginha: uma criatura de pele marrom, olhos vermelhos e corpo atarracado, que emitia um estranho zumbido. Nos dias seguintes, outros relatos surgiram, incluindo de militares que teriam capturado a criatura viva.
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| Recorte de jornal sobre o Incidente em Varginha / Crédito: Divulgação / Facebook |
Assim como em Roswell, a resposta oficial foi de negativa absoluta. As autoridades brasileiras descartaram qualquer ocorrência extraordinária, atribuindo os relatos a confusões ou histeria coletiva. No entanto, testemunhas envolvidas, incluindo membros do Corpo de Bombeiros, mantiveram versões consistentes sobre a coleta de um ser estranho, sustentando a existência de um fato extraordinário suprimido.
Um Padrão Inconfundível de Acobertamento
Ao colocar os dois casos lado a lado, as semelhanças vão além do mero "avistamento de ETs". Como aponta Marco Antônio Petit, coeditor da Revista UFO, há um modus operandi claro:
1. O Evento Extraordinário: Relatos consistentes de algo radicalmente anômalo, seja um objeto acidentado (Roswell) ou uma criatura viva (Varginha).
2. Ação Militar Imediata: A presença e o controle das forças armadas são rápidos, decisivos e afastam testemunhas e civis.
3. Narrativa Oficial Simplificadora: Após um breve silêncio ou anúncio sensacionalista, surge uma explicação oficial banal (balão meteorológico, pessoa com deficiência, animal) que não se alinha com a gravidade e o secretismo da operação inicial.
4. Descredito e Desinformação: Testemunhas-chave são ignoradas ou desmoralizadas, e a história oficial é mantida apesar das inconsistências.
5. Sigilo Documental: A peça final do padrão é a falta de transparência. A desclassificação total de documentos é sempre parcial ou inexistente, impedindo o esclarecimento definitivo e alimentando a desconfiança.
Um Legado de Interrogações
O título de "Roswell brasileiro" dado a Varginha não é um mero sensacionalismo. É um reconhecimento de que ambos os casos encapsulam a mesma dinâmica fundamental: um choque entre o inexplicável e o aparato de Estado, resultando em uma verdade oficial frágil e uma verdade testemunhal resiliente.
A distância de 50 anos e de milhares de quilômetros entre os eventos apenas fortalece a percepção de que, diante de fenômenos que desafiam a compreensão, a reação inicial das instituições tende a ser a mesma: controlar a informação, oferecer uma narrativa palatável e esperar que o tempo apague as perguntas.
Tanto em Roswell quanto em Varginha, o tempo, no entanto, falhou em seu papel de apagador. As perguntas, assim como o fascínio pelo mistério, permanecem mais vivas do que nunca.




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