Variações Históricas: De Psellus a Binsfeld e Além

Por Gustavo José
As concepções sobre a organização e as naturezas das entidades infernais passaram por transformações notáveis ao longo dos séculos, refletindo tanto o contexto teológico quanto as influências filosóficas e culturais de cada época.


No século XI, o erudito bizantino Miguel Pselo, em sua obra sobre a atuação dessas entidades, propôs uma divisão baseada em sua localização e elemento associado. Ele distinguia seis categorias principais: as de natureza ígnea (relacionadas ao fogo e às regiões superiores), as aéreas (que habitam o ar e interferem nas ilusões dos sentidos), as aquáticas (ligadas às águas e aos mares, capazes de provocar tempestades), as terrestres (vinculadas à superfície da terra), as subterrâneas (que atuam nas profundezas e causam abalos) e, por fim, as que fogem da luz (associadas às trevas absolutas e ao afastamento do sol). Essa estrutura ecoava ideias platônicas e neoplatônicas sobre os elementos e os espíritos intermediários, servindo de base para várias formulações posteriores, inclusive no Renascimento.

Já no final do século XVI, o teólogo e inquisidor Peter Binsfeld apresentou, em 1589, uma abordagem distinta em seu tratado sobre confissões de acusados de malefícios. Ele associou entidades proeminentes aos sete vícios capitais, criando uma correspondência direta entre cada defeito moral humano e um tentador específico. Assim, o orgulho era ligado a Lúcifer, a avareza a Mamon, a luxúria a Asmodeus, a inveja a Leviatã, a gula a Belzebu, a ira a Satanás e a preguiça a Belfegor. Essa classificação, influenciada por textos anteriores como o *Lanterne of Light*, enfatizava o papel dessas figuras como instigadoras diretas dos pecados mais graves, oferecendo uma ferramenta prática para a teologia moral e para os processos de identificação de influências malignas.

Após Binsfeld, as sistematizações continuaram a se diversificar. No período renascentista e barroco, autores como Francesco Maria Guazzo retomaram parcialmente o modelo elemental de Pselo, adaptando-o ao contexto da caça às bruxarias, enquanto grimórios e tratados de magia cerimonial (como os que culminaram na tradição goética do século XVII) introduziram estruturas mais complexas, com reis, duques, marqueses e presidentes organizados em legiões numeradas e direções cardeais. Outros, como Johann Weyer no século XVI, tentaram catalogações mais amplas, misturando hierarquias políticas infernais com descrições de poderes e comandados.

Ao longo dos séculos seguintes, essas ideias migraram para o ocultismo moderno, o romantismo literário e até interpretações contemporâneas em diversas correntes esotéricas e culturais. Cada reformulação revela menos uma contradição absoluta e mais uma adaptação: do modelo cósmico-elementar medieval-bizantino à visão moral-psicológica da Contrarreforma, e dali para sistemas mais burocráticos ou simbólicos. O que permanece constante é a tentativa humana de ordenar o caos do mal, atribuindo-lhe estrutura, nomes e propósitos compreensíveis dentro do imaginário de cada era.

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