O Lado Sombrio da Música da Cuca
Por
Gustavo José
janeiro 01, 2026
A música da Cuca, essa figura icônica do folclore brasileiro, é um exemplo clássico de como o universo infantil pode ser permeado por elementos sombrios e assustadores. Quem nunca ouviu, ainda criança, a cantiga de ninar “Nana, neném, que a Cuca vem pegar, papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar”? Ou, mais diretamente associada ao Sítio do Picapau Amarelo, a canção “Cuidado com a Cuca, que a Cuca te pega, e pega daqui, e pega de lá”? Essas melodias simples, repetitivas e aparentemente inocentes carregam uma carga de terror que marca gerações de brasileiros. Elas transformam o ato de dormir em uma ameaça velada, onde uma criatura monstruosa espreita as crianças desobedientes. Mas por que algo destinado ao público infantil pode ser tão aterrorizante? Essa dualidade entre o lúdico e o macabro é o que torna a música da Cuca um fenômeno cultural fascinante e perturbador.
A origem da Cuca remonta ao folclore ibérico, trazido para o Brasil durante a colonização portuguesa. Na tradição portuguesa e galega, a “Coca” ou “Coco” era um ser horrendo, uma espécie de dragão ou fantasma que devorava crianças desobedientes. No Brasil, essa lenda se adaptou, tornando-se uma bruxa velha e maligna, associada ao bicho-papão. Luís da Câmara Cascudo, um dos maiores estudiosos do folclore brasileiro, classifica a Cuca como um “mito secundário”, influenciado por tradições europeias, mas incorporado à cultura popular local. Ela era usada para disciplinar crianças: durma cedo, obedeça aos pais, ou a Cuca virá pegá-lo. Essa função pedagógica através do medo é comum em muitas culturas – pense no Boogeyman inglês ou no Homem do Saco espanhol. No entanto, no Brasil, a Cuca ganhou contornos únicos, especialmente graças à literatura e à televisão.
O grande responsável pela popularização da imagem moderna da Cuca foi Monteiro Lobato, em sua série de livros “Sítio do Picapau Amarelo”. No livro “O Saci”, de 1921, Lobato descreve a Cuca como uma feiticeira com aparência de jacaré, garras afiadas, voz horripilante e cabelos loiros desgrenhados. Ela vive em uma caverna, prepara poções mágicas e só dorme uma vez a cada sete anos, o que a torna uma ameaça constante. Lobato transformou uma lenda oral vaga em uma vilã concreta e memorável, antagonista das aventuras de Narizinho, Pedrinho e Emília. Essa versão reptiliana, inspirada possivelmente no dragão derrotado por São Jorge na tradição ibérica, fixou-se no imaginário coletivo. Mas foi a adaptação televisiva da Rede Globo, entre 1977 e 1986, e depois no reboot dos anos 2000, que eternizou a Cuca como um ícone de terror infantil.
Na série de TV, a Cuca era interpretada por atores em fantasias grotescas: um jacaré bípede com peruca loira, olhos esbugalhados e uma risada gutural que ecoava pela tela. Sua música tema, composta especialmente para o programa, amplificava o horror. Vamos à letra principal, cantada em várias versões, inclusive por Cássia Eller em uma gravação marcante:
“Cuidado com a Cuca
Que a Cuca te pega
E pega daqui
E pega de lá
A Cuca é malvada
E se fica irritada
A Cuca é zangada
Cuidado com ela
A Cuca é matreira
E se fica zangada
A Cuca é danada
Cuidado com ela”
Há variações mais elaboradas, como a interpretada com risadas malignas: “Cuca... hahahahaha! Falem mal, mas falem de mim! Feiticeira, ardilosa, abominável... Eu sou má, perversa, ruim!”. A melodia é ritmada, quase dançante, o que cria um contraste perturbador com as letras ameaçadoras. A repetição incessante de “te pega” evoca uma perseguição inevitável, enquanto adjetivos como “malvada”, “zangada” e “danada” pintam a Cuca como uma entidade imprevisível e vingativa. Para uma criança, ouvir isso antes de dormir não é reconfortante – é um convite ao pesadelo.
O aspecto aterrorizante vai além da letra. A música é embalada por uma instrumentação simples, mas com tons menores que sugerem suspense, e a voz da Cuca, rouca e demoníaca, reforça o medo. Muitas pessoas relatam traumas de infância associados a ela. Em fóruns online e depoimentos, adultos contam como se escondiam atrás do sofá quando a Cuca aparecia na TV, ou como pediam para mudar de canal. Uma blogueira lembra que, ao cantar “Nana neném” para o filho, ele protestou por causa do medo incutido pela Cuca do Sítio. Outro exemplo: em discussões sobre músicas assustadoras, brasileiros citam o tema da Cuca como o que mais os aterrorizou na infância, mais até que clipes de rock pesado. Vídeos no YouTube com reações modernas mostram crianças de hoje reagindo com pavor à risada clássica da personagem.
Essa terrorização não é acidental. Canções infantis brasileiras frequentemente usam o medo como ferramenta educativa. “Boi da cara preta”, “Atirei o pau no gato” e a própria “Nana neném” ameaçam com monstros ou violência para impor obediência. Críticos apontam que isso reflete uma tradição cultural de controle através do terror, herdada do colonialismo e do folclore europeu. No caso da Cuca, o pavor é intensificado pela visualidade: o jacaré humanoide é grotesco, misturando o familiar (uma bruxa) com o animalesco (réptil predador). Psicólogos infantis discutem como tais figuras podem gerar ansiedade noturna, mas também estimulam a imaginação, ajudando crianças a lidarem com medos abstratos.
Comparando com outras culturas, a Cuca se assemelha ao Krampus europeu ou ao El Cucuy latino-americano – monstros que punem crianças travessas. Mas no Brasil, ela ganhou uma camada pop graças à mídia. Cássia Eller, em sua versão rock da música, trouxe um tom irônico e poderoso, mas manteve o ar ameaçador. Artistas como Tarsila do Amaral pintaram a Cuca em 1924, retratando-a como uma criatura híbrida e assustadora, influenciada pelo modernismo que valorizava o folclore nacional.
Hoje, a Cuca continua viva. Na série “Cidade Invisível” da Netflix, ela é reinterpretada de forma mais sombria e adulta. Memes na internet brincam com sua risada, e vídeos infantis no YouTube tentam suavizá-la, mas o original permanece aterrorizante. Por que persiste esse fascínio pelo medo no infantil? Talvez porque o terror controlado prepare para o mundo real, ou porque contraste com a doçura típica das cantigas. A música da Cuca não é apenas uma melodia; é um portal para o lado oscuro da infância brasileira.
Definitivamente, a música infantil da Cuca é aterrorizante; e isso é parte de seu encanto perverso. Ela nos lembra que a infância não é só inocência: é também o terreno onde plantamos sementes de medo para colher obediência. Mas, ao crescer, muitos de nós olhamos para trás e rimos, transformando o pavor em nostalgia. Afinal, a Cuca te pega... mas só se você não dormir. Cuidado!
Imagem: Gustavo José | Criada com auxílio de IA
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