As Sombras de Abigail
Por
Gustavo José
Eu ainda ouço os gritos. Não todos os dias, não mais. Mas, nas noites quietas, quando o vento do deserto de Nevada sopra contra as janelas da minha casa, eles voltam. Gritos que não são humanos, mas também não são de fera. São dela. Abigail. Minha culpa, minha cruz, meu pesadelo eterno.
Eu era jovem em 1943, uma bióloga recém-formada, cheia de sonhos de mudar o mundo com a ciência. Quando fui chamada para trabalhar na Área 51 — ou Campo Auxiliar de Indian Springs, como diziam na época —, achei que era minha chance de ouro. Albert Western, o chefe do projeto, era uma lenda viva. Ele falava com paixão, com olhos brilhando, sobre criar o futuro: um soldado perfeito, imune à dor, à morte. Eu acreditava nele. Todos nós acreditávamos. Mas ninguém imaginava o preço.
Abigail era um raio de luz. Tinha 20 anos, cabelos castanhos ondulados, um sorriso que iluminava os corredores frios da base. Ela era filha de Albert, mas também nossa colega, sempre com um caderno na mão, anotando ideias para seus estudos. Quando Albert anunciou que ela seria a voluntária do Projeto Abigail, meu coração apertou. “É temporário”, ele dizia. “Vou protegê-la. Vamos fazer história.” Eu quis acreditar. Deus, como eu quis.
Os primeiros meses foram de euforia. Injetávamos compostos experimentais, misturas de hormônios, substâncias que nem sabíamos nomear direito. Abigail aguentava tudo com coragem. Ela ria, mesmo com as agulhas cravadas nos braços, dizendo que queria ser a primeira mulher a carregar o mundo nas costas. Mas então começaram as mudanças. Primeiro, sutis: a pele dela ficou pálida, os olhos mais fundos. Depois, grotescas. Seus cabelos caíram em tufos, deixando o couro cabeludo exposto, marcado por veias escuras. Seus dentes cresceram, rasgando as gengivas, e ela gritava de dor enquanto tentava esconder o sangue com as mãos trêmulas. Eu anotava tudo, como uma boa cientista, mas cada linha no meu caderno parecia uma traição.
Albert não parava. “Estamos perto”, ele repetia, mesmo quando Abigail começou a mudar de forma. Ela cresceu, os ossos estalando como galhos secos, os braços se alongando até parecerem irreais. Um dia, ela me olhou nos olhos — aqueles olhos que já não eram dela — e sussurrou: “Por que você deixa ele fazer isso comigo?” Eu não respondi. Não tinha resposta. Eu só segurava os frascos, ajustava as máquinas, obedecia.
Em 1947, Abigail não era mais Abigail. Era uma criatura de quase três metros, magra como um esqueleto, com a pele esticada e translúcida. Ela não falava mais, só rugia, um som que fazia o chão tremer. Albert, destruído, ainda acreditava que podia trazê-la de volta. Ele passava noites na cela dela, falando com ela como se ainda fosse sua filha. “Você vai ficar bem, meu amor”, ele dizia, enquanto ela arranhava as paredes de aço até os dedos sangrarem.
Eu tentei alertar os outros. Escrevi relatórios, implorei para pararem o projeto. Mas o governo queria resultados, e Albert era intocável. Até que ele não aguentou mais. Encontrei a carta dele na mesa do laboratório, rabiscada com mãos trêmulas: “Salvem minha filha. Não a matem.” No dia seguinte, ele estava morto, um frasco vazio de veneno ao lado do corpo. Chorei por ele, mas mais por ela.
Eles decidiram encerrar o experimento. Não com compaixão, claro. Pararam de alimentar Abigail, achando que a fome a mataria. Mas ela era mais forte do que imaginavam. Uma noite, ouvi o alarme tocar. Gritos, tiros, caos. Abigail tinha escapado, matado dois guardas como se fossem bonecos de pano. Corri para o laboratório, mas já era tarde. Eles a encurralaram numa ala subterrânea e selaram a entrada com concreto. Enquanto jogavam o cimento, ouvi os rugidos dela, misturados com algo que parecia um choro. Meu coração partiu.
Saí da Área 51 pouco depois. Me mandaram assinar papéis, jurar silêncio, e me dispensaram com uma pensão para comprar meu silêncio. Mas o silêncio não apaga o que vi. Dizem que ela ainda está lá, presa no subsolo, viva ou não, não sei. Às vezes, sonho com ela. Não com a criatura, mas com a Abigail de antes, sorrindo, perguntando por que não a ajudei.
Hoje, vivo longe do deserto, mas ele vive em mim. Cada rangido da casa, cada sombra na parede, me faz lembrar dela. Eu era só uma assistente, mas fui cúmplice. O Projeto Abigail não criou um super soldado. Criou um monstro, e eu ajudei a moldá-lo. E agora, nas noites quietas, quando os gritos ecoam na minha mente, sei que nunca serei livre dela.
Por Gustavo José
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