Hierarquias Demoníacas: Estruturas do Inferno

Por Gustavo José

A noção de hierarquias demoníacas e estruturas do Inferno tem fascinado a humanidade por séculos, entrelaçando mitologia, religião, literatura e ocultismo. Essas concepções surgem principalmente de tradições judaico-cristãs, influenciadas por elementos zoroastrianos e folclóricos, e foram sistematizadas em grimórios medievais e renascentistas. Obras como o Ars Goetia (parte do The Lesser Key of Solomon) e a Inferno de Dante Alighieri oferecem visões detalhadas de demônios organizados em ranks nobres e um Inferno dividido em camadas de punição. Esses sistemas não apenas refletem medos humanos sobre o mal, mas também servem como alegorias morais, advertindo contra pecados e vícios. Neste texto, exploraremos as origens históricas, as classificações por domínio e ofício, e as estruturas infernais, baseando-nos em fontes clássicas para uma análise abrangente.

As origens das hierarquias demoníacas remontam a tradições antigas. No judaísmo, embora não haja uma demonologia formal, textos como o Livro de Enoque descrevem anjos caídos, os Grigori ou Vigilantes, liderados por figuras como Azazel e Semjaza, que descem à Terra e ensinam conhecimentos proibidos à humanidade. Esses seres, punidos por Deus, tornam-se demônios associados a sedução e corrupção. A influência zoroastriana introduz dualismos entre bem e mal, com demônios como agentes do caos. No cristianismo primitivo, demônios são vistos como anjos caídos, liderados por Lúcifer (do latim "portador da luz", baseado em Isaías 14:12), que se rebela contra Deus. Textos como o Testamento de Salomão atribuem a Salomão o controle sobre demônios, listando-os individualmente sem uma hierarquia rígida, mas enfatizando métodos para subjugá-los. Durante a Idade Média, teólogos como Tomás de Aquino discutem a natureza imaterial dos demônios, capazes de assumir formas e influenciar humanos, enquanto caçadores de bruxas como Heinrich Kramer, no Malleus Maleficarum, os retratam como sedutores de almas.

No Renascimento, grimórios como o Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer (1583) e o Ars Goetia (século XVII) formalizam hierarquias, inspirados em tradições salomônicas. Esses textos descrevem 72 demônios evocados por Salomão e confinados em um vaso de bronze, cada um com selos, legiões de espíritos subordinados e habilidades específicas, como prever o futuro ou ensinar ciências. A demonologia cristã evolui para classificar demônios por domínios, como os sete pecados capitais, ou por ofícios, espelhando estruturas cortesãs europeias. Obras como o Dictionnaire Infernal de Collin de Plancy (1818) adicionam ilustrações e ranks, influenciando o ocultismo moderno, incluindo a Bíblia Satânica de Anton LaVey (1969), que lista quatro príncipes infernais ligados a elementos e direções cardeais: Satanás (fogo, sul), Lúcifer (ar, leste), Belial (terra, norte) e Leviatã (água, oeste).

As classificações por domínio agrupam demônios com base em influências, como pecados, elementos ou comportamentos. Uma das mais antigas é a de Michael Psellus (século XI), que divide demônios em seis tipos elementais: ígneos (fogo), aéreos (ar), marinhos (água), terrestres (terra), subterrâneos e lucífugos (que fogem da luz). Essa visão bizantina enfatiza adaptações ambientais, com demônios aéreos causando tormentas e marinhos afogamentos. No século XV, o tratado anônimo Lanterne of Light atribui demônios aos sete pecados capitais como "sete príncipes do Inferno": Lúcifer (orgulho), Belzebu (inveja), Satanás (ira), Abaddon (preguiça), Mamom (avareza), Belfegor (gula) e Asmodeus (luxúria). Essa lista influenciou obras posteriores, mas variações surgem, como na classificação de Peter Binsfeld (1589), que reatribui: Lúcifer (orgulho), Mamom (avareza), Asmodeus (luxúria), Leviatã (inveja), Belzebu (gula), Satanás (ira) e Belfegor (preguiça). Binsfeld, um teólogo alemão, via esses príncipes como tentadores específicos, cada um opondo-se a virtudes cristãs.

Alphonso de Spina (1467) expande para dez tipos, incluindo íncubos e súcubos (demônios sexuais), familiares (espíritos serviçais), drudes (demônios noturnos germânicos), cambions (híbridos demoníaco-humanos) e demônios que induzem bruxas a sabbats. Agrippa, em De occulta philosophia (1509–1510), aplica numerologia: na escala da unidade, um príncipe da rebelião; na quaternária, quatro grupos liderados por Lúcifer, Belzebu, Satanás e um quarto sem nome. Sébastien Michaëlis (1613), baseado em exorcismos, estrutura em três hierarquias invertendo as angelicais de Pseudo-Dionísio: a primeira (serafins, querubins, tronos) inclui Belzebu (inveja), Leviatã (heresia), Asmodeus (luxúria), Berith (homicídio), Astaroth (preguiça), Verrine (impaciência), Gressil (impureza) e Sonneillon (ódio); a segunda (potestades, dominações, virtudes) tem Carreau (dureza de coração), Carnivale (obscenidade), Oeillet (quebra de votos), Rosier (contra pureza sexual) e Belias (arrogância); a terceira (principados, arcanjos, anjos) inclui Verrier (desobediência), Olivier (crueldade aos pobres) e Iuvart (possessão). Cada demônio opõe-se a um santo, como Belzebu a São Francisco.

O Livro de Abramelin (séculos XIV–XV) lista quatro príncipes: Lúcifer, Leviatã, Satanás e Belial, com oito subpríncipes como Astaroth, Magoth e Asmodeus. Rei Jaime VI, em Daemonologie (1597), classifica por métodos de tormento: espectros (assombram casas), obsessão (perseguem externamente), possessão (invadem o corpo) e fadas (profetizam e transportam). Esses sistemas por domínio destacam demônios como personificações de vícios humanos, servindo como ferramentas para teologia moral e exorcismos.

As classificações por ofício enfatizam ranks militantes ou cortesãos, com demônios comandando legiões. O Pseudomonarchia Daemonum lista 69 demônios, omitindo alguns do Ars Goetia, que expande para 72 com selos e descrições. No Ars Goetia, ranks incluem: reis (9, como Baal, rei do leste com 66 legiões, ensinando invisibilidade; Paimon, rei do oeste com 200 legiões, concedendo dignidades); duques (22, como Agares, ensinando línguas; Astaroth, duque com 40 legiões, respondendo sobre passado, presente e futuro); príncipes (7, como Sitri, causando amor; Stolas, ensinando astronomia); marqueses (15, como Gamigin, evocando almas; Andras, semeando discórdia); condes (5, como Raum, destruindo cidades; Bifrons, ensinando ciências); cavaleiros (1, Furcas, ensinando filosofia); presidentes (12, como Marbas, mudando formas; Buer, curando doenças). Esses demônios são evocados em horários específicos, com precauções contra sua astúcia.

O Dictionnaire Infernal modela uma corte infernal: príncipes como Belzebu (chefe supremo, fundador da Ordem da Mosca), Satanás (líder da oposição), Eurynome (príncipe da morte), Moloch (príncipe das lágrimas), Plutão (príncipe do fogo), Pan (príncipe dos íncubos), Lilith (princesa dos súcubos), Leonard (senhor do sabbat) e Balberith (senhor das alianças); ministros como Adramelech (chanceler), Astaroth (tesoureiro), Nergal (chefe de polícia secreta), Baal (comandante do exército), Leviatã (almirante); justiça com Lúcifer (chefe da injustiça) e Alastor (executor). Essa hierarquia espelha estruturas humanas, com embaixadores e casas de príncipes, enfatizando uma burocracia do mal.

A estrutura do Inferno é vividamente retratada na Inferno de Dante (parte da Divina Comédia, 1320), influenciada por Aristóteles, Cícero e teologia cristã. O Inferno é um funil subterrâneo com nove círculos concêntricos, culminando no centro da Terra, onde Satanás reside. Pecados são divididos em incontinência (círculos 2–5), violência (7) e fraude (8–9), com o Limbo (1) para pagãos virtuosos e heresia (6) adicionados. Punições seguem o contrapasso, simbólicas do pecado.

Antes dos círculos, o Vestíbulo abriga os indecisos, perseguidos por vespas e vermes nas margens do Aqueronte, transportados por Caronte. O Limbo é um paraíso deficiente para unbaptizados e pagãos como Virgílio, Homero e Aristóteles, sem tormento mas sem Deus. O segundo círculo (luxúria) tem almas bufeteadas por ventos, julgadas por Minos; figuras como Cleópatra e Francesca da Rimini. O terceiro (gula) é um pântano fétido sob chuva gelada, guardado por Cérbero; Ciacco profetiza. O quarto (avareza) tem avaros e pródigos empurrando pesos, invocado por Plutão. O quinto (ira) é o Estige, com irados lutando na superfície e soturnos submersos, ferry por Flegias; Filippo Argenti.

A Cidade de Dis (círculos inferiores) é guardada por anjos caídos, Fúrias e Medusa; entrada por anjo celestial. O sexto (heresia) tem hereges em tumbas flamejantes; Farinata degli Uberti. O sétimo (violência) tem três anéis: contra próximos (fervendo em sangue, centauros como Nessus; Alexandre, o Grande); contra si (suicidas como árvores devoradas por harpias; Pier della Vigna); contra Deus/natureza/arte (areia ardente sob flocos de fogo; Capaneus, Brunetto Latini). Descida via Minotauro.

O oitavo (Malebolge, fraude simples) tem dez bolgias: 1 (proxenetas/sedutores chicoteados por demônios; Jason); 2 (aduladores em excremento); 3 (simoníacos de cabeça para baixo em buracos flamejantes; Papa Nicolau III); 4 (adivinhos com cabeças viradas; Tiresias); 5 (corruptos em piche, Malebranche como Malacoda; Ciampolo); 6 (hipócritas em mantos de chumbo; Caifás); 7 (ladrões mordidos por serpentes; Vanni Fucci); 8 (conselheiros maus em chamas; Ulisses); 9 (semeadors de discórdia mutilados; Maomé, Bertran de Born); 10 (falsários doentios; Gianni Schicchi). Descida via Geryon.

O nono (traição, Cócito congelado) tem quatro rodadas: Caina (traidores de parentes; irmãos Alberti); Antenora (de pátria; Bocca degli Abati, Ugolino); Ptolomea (de hóspedes; Fra Alberigo); Judecca (de senhores, imersos silenciosamente). No centro, Satanás, monstro de três faces (vermelha, amarela-branca, preta), mastigando Judas, Brutus e Cássio, representando ódio, ignorância e impotência. Dante e Virgílio saem escalando seu corpo peludo para o Purgatório.

Outras estruturas infernais incluem o Tártaro grego (prisão de titãs), o Sheol hebraico (submundo sombrio) e o Naraka hindu (múltiplos infernos com punições específicas). Na literatura, Milton's Paraíso Perdido retrata o Inferno como um lago de fogo com palácios demoníacos, enquanto em filmes como Inferno de Dan Brown, adaptações dantescas misturam mitologia com thriller.

Essas hierarquias e estruturas refletem ansiedades humanas sobre moralidade, poder e o além. Embora fictícias, influenciam cultura pop, de jogos como Dante's Inferno a séries como Supernatural, lembrando que o "Inferno" é tanto interno quanto cósmico. Em um mundo secular, servem como metáforas para caos social e psicológico, perpetuando o fascínio pelo mal.