Pseudomonarchia Daemonum: O Catálogo de Weyer
Por
Gustavo José
A Pseudomonarchia Daemonum, também conhecida como "Falsa Monarquia dos Demônios", é uma obra seminal no campo da demonologia ocidental, compilada pelo médico e ocultista holandês Johann Weyer (ou Wier) no século XVI. Publicada pela primeira vez em 1577 como um apêndice à sua obra principal, De Praestigiis Daemonum et Incantationibus ac Venificiis (Sobre as Ilusões dos Demônios e Sobre Feitiços e Venenos), essa lista de demônios representa um catálogo hierárquico de entidades infernais, descrevendo suas aparências, poderes e métodos de invocação. Weyer, um humanista e cético em relação às caças às bruxas da época, utilizou essa compilação não apenas para documentar crenças antigas, mas também para criticar as superstições e as perseguições religiosas que assolavam a Europa renascentista. Neste texto, exploraremos o contexto histórico da obra, sua estrutura e conteúdo, as influências que a moldaram, o papel de Weyer como autor e o legado cultural da Pseudomonarchia Daemonum, estendendo-nos por cerca de duas mil palavras para uma análise aprofundada.
Para compreender a Pseudomonarchia Daemonum, é essencial situá-la no turbulento panorama do século XVI. A Europa estava imersa na Reforma Protestante e na Contrarreforma Católica, períodos marcados por intensas disputas teológicas e um fervor religioso que frequentemente se manifestava em perseguições. A caça às bruxas, alimentada por tratados como o Malleus Maleficarum (O Martelo das Bruxas) de Heinrich Kramer e James Sprenger, publicado em 1486, tornara-se uma ferramenta de controle social e religioso. Milhares de pessoas, principalmente mulheres, foram acusadas de pactos com o diabo e executadas. Johann Weyer, nascido em 1515 em Grave, nos Países Baixos, era um médico treinado em Paris e um discípulo de Agrippa de Nettesheim, um renomado ocultista. Weyer serviu como médico pessoal do duque Guilherme de Cleves, uma posição que lhe permitiu observar de perto as injustiças das caças às bruxas. Sua obra principal, De Praestigiis Daemonum, publicada em 1563, argumentava que muitas supostas bruxas eram na verdade vítimas de ilusões mentais, doenças ou manipulações demoníacas, mas não mereciam a morte. Ele via os demônios como entidades reais, mas subordinadas a Deus, e criticava a Igreja por exagerar seu poder.
A Pseudomonarchia Daemonum surge como um apêndice à quinta edição de De Praestigiis, em 1577. Weyer alega que o catálogo foi extraído de um manuscrito antigo, possivelmente baseado em tradições medievais e renascentistas de grimórios como o Clavicula Salomonis (Chave de Salomão). No entanto, estudiosos modernos sugerem que Weyer pode ter compilado ou adaptado o material de fontes variadas, incluindo lendas judaico-cristãs sobre o Rei Salomão, que supostamente controlava demônios para construir o Templo de Jerusalém. O título "Pseudomonarchia" implica uma "falsa monarquia", sugerindo que a hierarquia demoníaca é uma paródia ou ilusão em comparação à verdadeira soberania divina. Weyer usa esse catálogo para demonstrar que os demônios, embora poderosos, são limitados e podem ser compreendidos racionalmente, contrapondo-se à histeria coletiva da época.
Estruturalmente, a Pseudomonarchia Daemonum lista 69 demônios, organizados em uma hierarquia que reflete a estrutura feudal da sociedade europeia medieval. Cada entrada inclui o nome do demônio, seu título nobre (como rei, duque, marquês ou conde), o número de legiões que comanda (cada legião composta por 6.666 demônios, segundo tradições demonológicas), sua aparência ao ser invocado, seus poderes específicos e, em alguns casos, métodos para controlá-lo. Diferentemente de grimórios posteriores como a Ars Goetia (parte da Lemegeton Clavicula Salomonis), que lista 72 demônios e inclui sigilos (selos mágicos), a versão de Weyer é mais textual e menos ritualística, focando em descrições narrativas.
Começando pelos demônios mais proeminentes, o catálogo inicia com Baal (ou Bael), o primeiro rei, que aparece como um homem com três cabeças: de homem, gato e sapo. Ele comanda 66 legiões e concede invisibilidade e sabedoria. Em seguida, Agares, um duque que surge como um homem velho montado em um crocodilo, ensina línguas e causa terremotos. Vassago, o terceiro, é um príncipe que revela o passado, presente e futuro. Esses demônios iniciais estabelecem o tom: entidades com poderes úteis para o mago, mas perigosas se não controladas. Prosseguindo, encontramos nomes familiares da mitologia demonológica, como Amon, que aparece como um lobo com cauda de serpente e cuspe fogo, comandando 40 legiões e reconciliando amigos. Barbatos, um duque com aparência de caçador, entende o canto dos pássaros e revela tesouros escondidos.
A hierarquia continua com demônios como Paimon, um rei que surge com uma coroa, montado em um camelo, acompanhado por uma hoste de espíritos. Ele ensina artes e ciências, mas exige sacrifícios. Belial, outro rei, aparece como dois anjos belos em uma carruagem de fogo, mas é traiçoeiro e requer oferendas. Asmodeus, famoso do Livro de Tobias na Bíblia, é descrito como um rei com três cabeças (de touro, homem e carneiro), montado em um dragão, e ensina geometria e astronomia. Esses descrições misturam elementos bíblicos, clássicos e folclóricos, refletindo a sincretismo cultural da Renascença.
Weyer não se limita a meras listas; ele intercala comentários céticos. Por exemplo, ele sugere que muitos demônios são invenções humanas ou projeções de medos coletivos, alinhando-se à sua tese principal de que as bruxas não são culpadas de crimes reais, mas sim vítimas de ilusões demoníacas. Isso o torna um precursor do racionalismo iluminista, questionando a validade das confissões obtidas sob tortura. No contexto da caça às bruxas, Weyer estimava que mais de 7.000 execuções ocorreram apenas na Alemanha, e via a demonologia como uma ferramenta para desmistificar, não promover, o medo.
As influências na Pseudomonarchia são multifacetadas. Weyer foi aluno de Agrippa, cujo De Occulta Philosophia (1533) discute magia natural e cerimonial, incluindo espíritos. Fontes antigas incluem o Testamento de Salomão, um texto pseudepigráfico do século I-III d.C., que descreve Salomão invocando demônios para trabalhos forçados. Elementos cabalísticos e gnósticos também permeiam, com nomes como Astaroth (derivada de Astarte, deusa fenícia) e Beelzebub (senhor das moscas, mencionado na Bíblia). Comparada à Ars Goetia, publicada anonimamente no século XVII, a lista de Weyer é semelhante, mas com discrepâncias: a Goetia adiciona sigilos e rituais mais elaborados, possivelmente baseados na de Weyer. Reginald Scot, em The Discoverie of Witchcraft (1584), plagia partes da Pseudomonarchia, usando-a para ridicularizar crenças em bruxaria.
O catálogo não é apenas uma curiosidade histórica; ele reflete visões renascentistas sobre o cosmos. Na época, o universo era visto como uma grande cadeia de ser, com anjos no topo, humanos no meio e demônios no fundo. Weyer, influenciado pelo platonismo e hermetismo, via os demônios como espíritos caídos, capazes de interagir com o mundo material, mas sujeitos à vontade divina. Seus poderes incluem controle sobre elementos (fogo, água, terra, ar), revelação de segredos, cura de doenças e manipulação de emoções. Por exemplo, Purson, um rei que aparece como um homem com cabeça de leão, revela tesouros e o passado/futuro. Marbas, um presidente que surge como um leão, cura doenças e transforma homens em animais.
Avançando na lista, encontramos demônios como Gusion, que concede honras e dignidades; Sitri, que inflama paixões amorosas; Beleth, um rei terrível que surge com trombetas e requer música para ser aplacado. Esses elementos ritualísticos sugerem que Weyer compilou de tradições goéticas, onde o mago usa círculos protetores e nomes divinos para comandar os espíritos. No entanto, Weyer adverte contra a invocação, vendo-a como perigosa e ilusória.
A meio do catálogo, demônios como Leraje causam guerras e feridas; Eligos revela segredos militares; Zepar provoca infertilidade em mulheres. Botis, um presidente e conde, aparece como uma víbora e promove reconciliações. Bathin transporta pessoas instantaneamente pelo mundo, ecoando lendas de tapetes voadores. Sallos causa amor entre homens e mulheres. Esses poderes utilitários atraíam ocultistas, mas Weyer os usa para argumentar que tais entidades são projeções da mente humana, influenciadas por melancolia ou drogas.
Continuando, Purson (já mencionado), Valefor rouba e causa familiaridade; Amdusias controla música e árvores; Belial (repetido em algumas edições); Decarabia ensina sobre pássaros e pedras preciosas. Asmodeus (também repetido); Gaap transporta e torna invisível; Furfur causa tempestades e ensina teologia. A lista prossegue com Marchosias, um lobo alado que cospe fogo; Stolas, uma coruja que ensina astronomia e ervas; Phenex, uma fênix que canta docemente; Halphas constrói torres e arma exércitos; Malphas constrói casas e revela pensamentos inimigos; Raum rouba tesouros e destrói cidades; Focalor afoga homens e derruba navios; Vepar guia navios e causa feridas podres; Sabnock constrói castelos e causa gangrena; Shax rouba visão e audição; Vine revela bruxas e constrói torres; Bifrons move corpos e ensina ciências; Uvall revela o passado e causa amor; Haagenti transmuta metais e torna sábio; Crocell causa ruídos e aquece águas; Furcas ensina filosofia e piromancia; Balam responde verdadeiramente sobre o passado; Alloces guia cavalos e ensina astronomia; Camio entende pássaros e ensina liberalmente; Murmur ensina filosofia e necromancia; Orobas responde sobre divindade e criação; Gremory causa amor e revela tesouros; Ose torna sábio em ciências; Amy revela tesouros guardados por espíritos; Oriax ensina astronomia e transforma homens; Vapula ensina ofícios mecânicos; Zagan transmuta metais e torna tolos sábios; Volac revela serpentes e tesouros; Andras semeia discórdia; Haures destrói inimigos e revela o passado; Andrealphus ensina geometria e transforma em pássaros; Cimeies ensina gramática e descobre tesouros perdidos; Amdusias (repetido); Belial (repetido); Decarabia (repetido); e Seere transporta instantaneamente.
Essa enumeração exaustiva, embora repetitiva em edições, ilustra a vastidão da imaginação demonológica. Weyer termina com Andromalius, que pune ladrões e revela maldade.
O legado da Pseudomonarchia Daemonum é profundo. Ela influenciou ocultistas como Aleister Crowley, que a incorporou ao sistema da Golden Dawn. Na literatura, demônios como Asmodeus aparecem em obras de Milton (Paraíso Perdido) e Goethe (Fausto). No cinema e jogos, como em Doom ou Supernatural, ecos dessa hierarquia persistem. Culturalmente, representa a transição do medieval para o moderno, questionando o sobrenatural através da razão.
Weyer enfrentou críticas: a Igreja Católica baniu sua obra, e protestantes como Jean Bodin o atacaram em Démonomanie des Sorciers (1580). No entanto, sua defesa das "bruxas" como doentes mentais pavimentou o caminho para o declínio das caças às bruxas no século XVII.
Em conclusão, a Pseudomonarchia Daemonum não é mero catálogo de horrores, mas um testemunho da luta renascentista entre fé e razão. Weyer, ao documentar esses demônios, desmistificou-os, promovendo compaixão sobre perseguição. Seu trabalho permanece relevante em discussões sobre superstição, saúde mental e o poder da narrativa mitológica na sociedade humana.
Imagem: Gustavo José / IA
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