A Guerra Contra a Bruxaria no Tajiquistão
Por
Gustavo José
O Tajiquistão, nação montanhosa da Ásia Central com uma população de aproximadamente 10 milhões de habitantes, tem se destacado nos últimos anos por uma intensa repressão estatal às práticas associadas ao oculto, como adivinhação, feitiçaria, cura espiritual e sessões de adivinhação. Sob o governo autoritário do presidente Emomali Rahmon, que ocupa o poder desde 1994, essas atividades são classificadas como superstições prejudiciais, fraudes exploratórias e, em alguns discursos oficiais, como potenciais vetores de extremismo religioso. A campanha, que ganhou força significativa a partir de 2024 e continuou em 2025 e 2026, combina justificativas religiosas islâmicas, econômicas e de segurança pública, refletindo as tensões entre tradições ancestrais profundamente enraizadas e a imposição de um modelo estatal secular e centralizado.
Essa política não é isolada: integra-se a um conjunto mais amplo de restrições religiosas e culturais implementadas pelo regime, incluindo proibições ao uso de vestimentas consideradas "alienígenas" à cultura nacional (como o hijab em certas formas), limitações a celebrações religiosas e controle rigoroso sobre o ensino islâmico. Organizações internacionais de direitos humanos, como a Freedom House e a Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF), classificam o Tajiquistão como um país "não livre", com graves violações às liberdades civis e religiosas.
Origens Históricas e Culturais das Práticas Ocultas
As crenças em magia, adivinhação e curandeirismo no Tajiquistão remontam a períodos pré-islâmicos, quando o território era influenciado por tradições zoroastrianas, maniqueístas, budistas e hinduístas. A chegada do Islã no século VII-VIII d.C. introduziu o sunismo hanafita como religião dominante, que condena explicitamente a adivinhação (kirana) e a feitiçaria (sihr) como pecados graves, conforme interpretações do Alcorão e hadiths do Profeta Maomé.
Apesar disso, elementos sincretistas persistiram, especialmente nas regiões remotas. No Pamir (Gorno-Badakhshan), onde predomina o ismaelismo xiita, práticas mágicas de proteção contra espíritos malignos, rituais terapêuticos e profiláticos agrícolas continuam presentes em vales isolados. Amuletos (tumors) com versos do Alcorão, ervas, sal, arroz e invocações são usados para afastar o mau-olhado, curar doenças ou influenciar relacionamentos. Essas tradições misturam elementos sufis (como ordens Nakshbandiya) com crenças locais antigas, incluindo rituais de ciclo de vida (casamentos, nascimentos e funerais).
Durante a era soviética (1924-1991), o ateísmo estatal tentou erradicar essas manifestações, rotulando-as como "resquícios feudais". No entanto, elas sobreviveram clandestinamente, especialmente entre populações rurais. Após a independência em 1991 e a guerra civil (1992-1997), que causou dezenas de milhares de mortes e destruiu infraestruturas, o colapso do sistema de saúde público impulsionou o recurso a curandeiros. Milhares de pessoas consultavam adivinhos para problemas de saúde, prosperidade ou relacionamentos, em um contexto de pobreza extrema, desemprego e migração laboral para a Rússia.
| As imponentes montanhas do Pamir ilustram o isolamento geográfico que permitiu a preservação dessas tradições |
Evolução Legislativa e Endurecimento das Punições
A repressão formal iniciou-se em 2007, com uma lei que proibiu adivinhação e feitiçaria, impondo multas equivalentes a 30-40 salários mínimos (valores significativos em um país onde o salário médio mensal gira em torno de 2.000-3.000 somonis, ou cerca de 180-270 dólares). Em 2015, penas mais severas foram introduzidas, incluindo até sete anos de prisão em casos graves.
O ponto de inflexão ocorreu em 2024: o parlamento aprovou emendas ao Código Penal e Administrativo, endurecendo punições. Praticantes reincidentes enfrentam até dois anos de prisão, multas de até 144.000 somonis (cerca de 13.350 dólares) ou trabalho compulsório de até seis meses. Sessões de "cura" para doentes ou deficientes são especialmente visadas. Desde julho de 2025, clientes também são punidos: multas administrativas ou detenção de 10-15 dias, com registro em banco de dados do Ministério do Interior.
Em novembro de 2024, o presidente Rahmon anunciou publicamente a detenção de mais de 1.500 pessoas por "bruxaria e adivinhação", além de 5.000 mulás sem registro oficial que ofereciam curas via oração. Em 2025, apenas na capital Dushanbe, foram registrados 90 casos nos primeiros seis meses, com 163 identificados ao longo do ano, resultando em multas e detenções. No país inteiro, cerca de 495 casos foram documentados nos primeiros seis meses de 2025.
Essas medidas fazem parte de uma estratégia mais ampla de "secularismo ativo", que inclui a Lei de 2024 sobre Regulamentação de Tradições e Cerimônias, assinada por Rahmon em junho, visando "proteger valores nacionais" contra "superstição e fanatismo".
A Operação Policial e Seus Efeitos na Sociedade
A polícia intensificou raides, com detenções em massa e vídeos de "arrependimento" transmitidos na televisão estatal, mostrando indivíduos confessando práticas para ganhar dinheiro. Muitos praticantes adaptaram-se: atendem em domicílio, recusam novos clientes ou operam via redes informais. Clientes, por sua vez, enfrentam vigilância, com nomes e fotos registrados em bancos de dados oficiais.
A sociedade está dividida. Parte apoia a campanha, alinhando-se à visão oficial de que essas práticas exploram vulneráveis em um país pobre (média salarial baixa, acesso limitado a saúde). Imãs e líderes religiosos enfatizam a proibição islâmica. Outros criticam o excesso repressivo, argumentando que curandeiros preenchem lacunas deixadas pelo Estado, como terapia psicológica acessível em um contexto de trauma pós-guerra civil.
| Imagem de cena tradicional tadjique, inclui celebração cultural, destacando a persistência de elementos místicos na identidade nacional |
Implicações e Reflexões Contemporâneas
Essa campanha revela contradições profundas: um Estado que combate superstições em nome do Islã ortodoxo e do progresso, mas reforça controle autoritário. Relatórios da Human Rights Watch e USCIRF apontam violações sistemáticas de liberdades, com repressão seletiva que pode deslocar práticas para a clandestinidade, sem resolver causas subjacentes — pobreza, desigualdade e fragilidade institucional.
No contexto global de 2026, o Tajiquistão exemplifica como regimes autoritários usam proibições contra o oculto para uniformizar normas culturais e suprimir dissidência. A tensão entre tradições milenares (especialmente no Pamir) e modernização estatal persiste, em um território onde montanhas isoladas guardam segredos antigos.
Essa realidade convida à reflexão: até que ponto leis repressivas conseguem extinguir crenças enraizadas, e qual o custo social de tal empreitada? O Tajiquistão oferece um exemplo atual de como o sobrenatural continua a desafiar o poder estabelecido, em um equilíbrio precário entre tradição, religião e autoridade estatal.
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