O Ídolo no Espelho

Por Gustavo José
Uma reflexão sobre a busca de importância e os abismos do conflito. 

Penso, às vezes, que no fundo de tudo que fazemos (do gesto mais nobre à disputa mais feroz) há um só pedido, mudo e insistente: vejam-me. Importo? Minha existência ressoa em alguém? Esse anseio por importância não é vaidade superficial; é uma fome quase física de significado. Queremos não apenas estar no mundo, mas pesar nele, deixar uma marca, um sinal de que estivemos aqui. É essa busca que nos ergue às maiores alturas e, com a mesma força, nos arrasta aos abismos mais sombrios.

Os filósofos viram isso há muito tempo. Aristóteles dizia que somos feitos para a comunidade, que só florescemos no olhar dos outros. Mas foi Hegel quem levou a ideia ao extremo: nossa própria consciência, a certeza de quem somos, só nasce no espelho de outra consciência. Precisamos ser reconhecidos para nos sabermos reais. Sem isso, somos fantasmas, assombrando a nós mesmos. É uma luta antiga: arriscamos tudo, até a vida, pela pura e simples confirmação de que existimos para alguém.

O curioso (e o perigoso) é como essa sede se disfarça. Ela pode vestir a roupa da virtude, nos impelindo a criar, a contribuir, a ser bons. Pode se transfigurar em arte, na tentativa desesperada e linda de fazer da vida uma obra que valha a pena. Mas também pode adoecer, virar essa coisa sombria que Nietzsche chamou de vontade de poder: o impulso cego de que a minha verdade, o meu grupo, a minha visão, seja a régua que mede todas as coisas. É aqui que a semente do conflito brota.

Porque quando essa necessidade íntima de validação se funde com uma bandeira, uma religião, uma ideologia, o solo fica envenenado. A busca vira posse. Formam-se tribos do significado, e o reconhecimento mútuo vira um jogo de soma zero: para o meu "nós" brilhar, o "eles" precisa ser apagado. A importância deixa de vir do que construo e passa a vir do que eu nego, do que eu destruo. Humilhações coletivas, memórias de desprezo – são gasolina nesse fogo. A política vira, então, guerra por outros meios, uma guerra pelo direito de ser o protagonista da história.

No plano íntimo, é igualmente desolador. Os existencialistas captaram esse desespero de fundo. Sartre tinha razão em seu incômodo famoso: o inferno são os outros. Mas não pela maldade ativa, e sim pelo julgamento passivo, constante. Estamos condenados a ser livres, a inventar quem somos a cada dia, e é um fardo angustiante. Daí a gente buscar desesperadamente um molde, uma essência, um olhar que nos fixe e diga: "É isso. Você é isso". Quando esse olhar nos falta, ou pior, quando nos devolve desdém, algo em nós se parte. Quantas brigas de família, quantos ressentimentos que carregamos por anos, não são sobre o fato em si, mas sobre aquele instante em que nos sentimos apagados? Uma discussão banal vira, no fundo, uma guerra pela própria existência.

E nosso tempo, ah, nosso tempo levou esse drama a um paroxismo cruel. As redes sociais institucionalizaram a economia da atenção: minha importância virou um número, uma métrica fria. "Se não sou visto, sou?" – a pergunta ecoa como um pânico de fundo. E os algoritmos, esses cozinheiros invisíveis, só nos alimentam com o prato que já sabemos que gostamos. Ficamos trancados em câmaras de eco, onde nossa visão de mundo é constantemente sussurrada de volta aos nossos ouvidos. O diferente deixa de ser um interlocutor; torna-se uma heresia, uma ameaça ao castelo de cartas da minha própria relevância. O diálogo morre antes de começar.

Então, o que fazer? Negar essa sede? Uma tarefa impossível e contra a natureza. Acho que o caminho é outro: é dar um jeito nela. É aprender a saciá-la de um modo menos destrutivo.

Primeiro, com um pouco de humildade. A verdadeira importância de uma ideia talvez não esteja em sua certeza absoluta, mas justamente na coragem de expô-la ao ar, à crítica, à possibilidade de estar errado. É o que Sócrates fazia.

Segundo, e mais difícil, é praticar um reconhecimento que vá além do espelho. É olhar para o outro (aquele que desafia tudo em que acredito) e, antes de qualquer debate, ver nele não um adversário a ser derrotado, mas um rosto humano a ser acolhido. O filósofo Levinas falava disso: o rosto do outro é uma ordem ética. Ele me diz, antes de qualquer palavra: "Não me mates". Nesse contexto, talvez diga: "Não me apagues". Buscar minha importância não na aniquilação do outro, mas na confirmação solene de que ele, também, tem fome da mesma coisa.

No fim das contas, esse anseio é nosso traço mais humano e, por isso, nosso risco mais constante. É o motor da sinfonia e do grito de guerra. A arte mais comovente e o fanatismo mais cego bebem da mesma fonte. Talvez a grande virada, o verdadeiro desafio para não nos destruirmos, seja aprender a ouvir, por trás do rugido do inimigo, o mesmo tremor de uma pergunta que fazemos no silêncio: "Eu importo?".

A chama que nos ilumina é a mesma que pode incendiar tudo. O trabalho não é apagá-la, mas aprender a acalentá-la, para que aqueça sem queimar.