Os Cavaleiros Templários

Por Gustavo José

Os Cavaleiros Templários são uma das histórias mais cativantes da Idade Média, né? Uma ordem militar que começou com um objetivo bem simples e acabou virando um verdadeiro império financeiro e político. Tudo começou no começo do século XII, logo depois da Primeira Cruzada (1096-1099). Um grupo de cavaleiros, liderado por Hugo de Payns, resolveu proteger os peregrinos cristãos que iam para Jerusalém e os Lugares Santos. Era perigoso viajar por aquelas terras, e eles queriam ajudar.

Em 1119, o rei Balduíno II deu permissão para que se instalassem no Monte do Templo, bem onde ficavam as ruínas do antigo Templo de Salomão, o lugar que hoje tem a Mesquita de Al-Aqsa. Ali, eles montaram o quartel-general e, pelo que se sabe, fizeram várias obras e escavações embaixo da terra. Não há documentos da época dizendo exatamente o que procuravam, mas muita gente especula que estavam atrás de relíquias sagradas, como a Arca da Aliança, ou talvez algum conhecimento antigo ligado à sabedoria de Salomão, tradições herméticas... Enfim, coisas que dariam poder e prestígio. O fato é que, de repente, a ordem começou a ficar rica: doações de terras, ouro, privilégios do papa. A bula Omne Datum Optimum, de 1139, foi um divisor de águas: eles respondiam só ao Papa, ninguém mais podia meter o bedelho.

Com essa independência, os Templários se espalharam pela Europa, e em Portugal eles tiveram um papel enorme. Participaram da Reconquista contra os mouros, ganharam castelos, terras... O de Tomar, por exemplo, virou um dos principais centros deles. Lá, eles não eram só guerreiros: viraram banqueiros de mão cheia. Criaram um sistema de depósitos seguros — você deixava dinheiro em Paris e sacava em Jerusalém, sem carregar ouro pela estrada. Letras de câmbio, empréstimos a reis e nobres... Foi tipo o embrião da banca moderna. E, diferente de outras ordens, eles tinham uma disciplina rígida, mas também uma certa igualdade entre os membros (não importava tanto se você era de família nobre ou não) e uma abertura religiosa maior, provavelmente por causa dos contatos com o mundo islâmico e judaico no Oriente Médio.

A influência deles foi tão grande que apareceu até em documentos históricos importantes. Na Inglaterra, a Temple Church, em Londres, era um ponto de encontro deles. Dizem que o rei João Sem Terra passou um tempo com os Templários antes de assinar a Magna Carta, em 1215, e o Mestre da ordem até testemunhou o documento. Alguns artigos — sobre liberdade da Igreja, limites ao poder do rei, direitos feudais — parecem ecoar interesses deles em frear abusos do poder. E olha só: essas ideias de liberdade, igualdade e resistência à tirania acabaram viajando pelo tempo, influenciando círculos maçônicos e iluministas, e chegando indiretamente à Declaração de Independência dos Estados Unidos, em 1776. Claro, não foi uma linha reta, mas o legado de fraternidade e direitos individuais estava no ar.

O declínio veio aos poucos. As derrotas na Terra Santa foram duras, e a queda de Acre, em 1291, foi o golpe final. Os mamelucos, liderados por Al-Ashraf Khalil, sitiaram a cidade, e o Grão-Mestre Guilherme de Beaujeu morreu lutando. Os poucos que sobraram resistiram mais uns dias, mas foram massacrados. Acabou a presença cruzada organizada no Levante depois de quase 200 anos. Mesmo assim, na Europa, eles continuavam fortes: administrando terras, emprestando dinheiro a reis endividados...

Até que Filipe IV da França, o "Belo", resolveu acabar com isso. O rei estava devendo uma fortuna para eles e queria o dinheiro. Em 13 de outubro de 1307 — uma sexta-feira, daí vem a superstição da "sexta-feira 13" — mandou prender todos os Templários na França de uma vez. Acusações pesadas: heresia, cuspir na cruz, negar Cristo, idolatria (o tal Baphomet), sodomia, rituais estranhos... Torturaram muita gente para arrancar confissões. O Papa Clemente V, que estava em Avignon e sob pressão, acabou cedendo. Em 1312, pela bula Vox in Excelso, dissolveu a ordem. Em 1314, Jacques de Molay, o último Grão-Mestre, foi queimado vivo em Paris e, segundo a lenda, amaldiçoou o rei e o papa — os dois morreram no mesmo ano.

Em Portugal, a coisa foi diferente. O rei D. Dinis não comprou as acusações e negociou com o papa. Em 1319, criou a Ordem de Cristo, transferindo para ela as propriedades, castelos (Tomar inclusive) e riquezas dos Templários. A nova ordem continuou o trabalho: ajudou na Reconquista e, depois, nas grandes navegações. O infante D. Henrique, o Navegador, foi Grão-Mestre. A cruz patente vermelha da Ordem de Cristo aparecia nas velas das caravelas; inclusive na frota de Pedro Álvares Cabral, que chegou ao Brasil em 1500. Então, de certa forma, o legado templário ajudou a financiar e a dar o tom espiritual para a expansão portuguesa e a chegada aqui.

Em outros lugares, como na Escócia, alguns templários sobreviventes se misturaram à população local, especialmente depois de batalhas como Bannockburn (1314). Há quem diga que isso influenciou as origens da maçonaria especulativa no século XVIII. E, sim, tem gente que especula sobre contatos pré-colombianos com o Brasil via rotas portuguesas antigas.

Aqui no Brasil mesmo, na Chapada dos Veadeiros (Goiás), falam de uma gruta chamada Gruta da Igrejinha, na Fazenda Água Fria, perto de Alto Paraíso. Tem uma cruz patente gravada na entrada, o símbolo clássico dos Templários, além de um túnel com arquitetura bem feita, arco romano e tal. Alguns associam isso a possíveis descendentes ou missionários ligados à Ordem de Cristo nos séculos XIV ou XV, talvez escondendo relíquias ou conhecimentos. Mas, sinceramente, não há consenso entre historiadores: muita gente acha que é algo do período colonial, talvez jesuítas ou bandeirantes benzendo ouro, ou até graffiti mais recente. É intrigante, alimenta teorias, mas fica no campo da especulação.

No fim das contas, os Templários foram muito além de guerreiros santos. Viraram pioneiros da banca, guardiões de segredos (reais ou imaginados) e inspiraram ideias de liberdade e igualdade que ecoam até hoje. O fim violento na França não apagou tudo: em Portugal, renasceram como Ordem de Cristo e ajudaram a moldar o mundo moderno, inclusive trazendo essa cruz vermelha para o Brasil. É uma história que mistura fatos concretos com um mistério que nunca acaba de fascinar. O que você acha mais interessante nisso tudo?