O medo do desconhecido é um instinto ou uma construção social?

Por Tio Lu


“O desconhecido não é o que nos assusta. O que nos assusta é a possibilidade de que o desconhecido seja pior do que o conhecido.” — adaptação de pensamento recorrente em psicologia evolutiva e existencial

1. A perspectiva biológica e evolutiva: um mecanismo de sobrevivência

O medo do desconhecido tem raízes profundas na biologia humana. Do ponto de vista evolutivo, nossos ancestrais que demonstravam cautela excessiva diante de estímulos novos (um barulho estranho, uma planta desconhecida, um caminho nunca trilhado) tinham mais chances de sobreviver para transmitir seus genes.

Principais evidências biológicas:

  • Ativação da amígdala (centro do medo) ocorre de forma quase automática diante de estímulos ambíguos ou imprevisíveis
  • Resposta de orientação seguida de congelamento ou fuga é observada em praticamente todos os mamíferos
  • Crianças muito pequenas (6–18 meses) já apresentam ansiedade ante estranhos (stranger anxiety) — um medo universal e espontâneo
  • Níveis elevados de cortisol são detectados em situações de incerteza mesmo sem perigo real
“O cérebro humano prefere um ‘mal conhecido’ a um ‘bem incerto’ porque a incerteza consome mais recursos metabólicos e aumenta a vulnerabilidade predatória.” — Hipótese da aversão à incerteza (uncertainty aversion)

2. A camada cultural e social: o medo aprendido e amplificado

Mesmo tendo uma base instintiva, o objeto e a intensidade do medo do desconhecido são fortemente moldados pelo contexto social e histórico.

Exemplos claros de construção social:

Época / Cultura O que era considerado “desconhecido assustador”
Idade Média europeia Mar, eclipse, trovão, mulheres independentes, “hereges”
Século XIX – colonialismo Florestas tropicais, povos indígenas, rituais africanos
Anos 1980–1990 “Stranger danger”, satanism, abdução alienígena
2020–2025 Inteligência artificial geral, imigração em massa, tecnologias de edição genética

Ou seja: o mecanismo biológico é praticamente universal, mas o alvo do medo é culturalmente selecionado e muitas vezes instrumentalizado por instituições (religião, Estado, mídia, grupos econômicos).

3. Interação entre instinto e cultura: um sistema de reforço mútuo

O mais interessante é que as duas dimensões não competem — elas se retroalimentam:

  1. O cérebro já vem “programado” para sentir desconforto na incerteza
  2. A sociedade oferece narrativas prontas que canalizam esse desconforto para alvos específicos
  3. Essas narrativas são repetidas e ganham força emocional → aumentam ainda mais a ativação da amígdala
  4. O ciclo se retroalimenta: medo → busca por explicações simples → adesão a narrativas coletivas → maior medo

Conclusão: nem só instinto, nem só construção

O medo do desconhecido é, portanto, um fenômeno híbrido:

Instinto → fornece a matéria-prima emocional e fisiológica
Construção social → decide o alvo, a intensidade e o significado desse medo

Compreender essa dupla natureza é essencial para não cairmos nem no biologismo ingênuo (“é tudo instinto, nada a fazer”) nem no construtivismo radical (“tudo é invenção cultural”).

A questão contemporânea mais relevante talvez seja: quais medos do desconhecido estão sendo fabricados ou amplificados hoje — e com que interesses?