Uma mulher desperta acorrentada no subsolo e luta para manter a lucidez enquanto busca forças para sobreviver
Por
Gustavo José
Seus olhos se abrem lentamente e ela recupera a consciência aos poucos. Levanta a cabeça e seus olhos imediatamente seguem o único raio de luz que entra no cômodo. Olha para a janela e percebe que está no subsolo. Seus pensamentos estão lentos e ela se sente enjoada. Seu primeiro instinto é se levantar e correr, mas, ao tentar se mover, descobre que está presa à cadeira. Há correntes em seus pés e suas mãos estão amarradas aos braços da cadeira. Ela se impulsiona para frente e percebe que até mesmo sua cintura está presa à cadeira por um tecido de couro apertado. O esforço que faz para se libertar é demais para ela, e precisa parar para não perder a consciência novamente. Respira fundo e sente os pulmões arderem, tossindo uma mistura de sangue e bile. Sente vontade de gritar, chutar e chorar, mas sabe que precisa manter a calma.
Ela decide que precisa observar o ambiente ao seu redor e tentar não lutar. Olha para a janela e vê o único raio de luz desaparecer rapidamente. De repente, o quarto fica completamente escuro, um preto mais escuro que o preto. É como se o ar ao seu redor fosse opaco; o quarto não absorveu um único raio de luz solar. Ela fecha os olhos; a escuridão que sente com eles fechados é mais confortável do que a escuridão de sua cela. Concentra todas as suas forças nos ouvidos e escuta atentamente. Em algum lugar do quarto, ouve um murmúrio abafado de água e até mesmo o farfalhar de insetos, o que confirma ainda mais sua suspeita de estar no subsolo. Concentra-se mais nos ouvidos, mas, infelizmente, é tudo o que consegue distinguir. Mais uma vez, sua cabeça gira e ela se controla para não se esforçar demais. Agora que a adrenalina diminuiu, começa a sentir dores em vários lugares; seus braços latejam e ela acha que pode ter torcido o tornozelo. Mesmo com as costas pressionadas contra a cadeira, sente uma pontada aguda. A dor dificulta seu raciocínio, mas ela precisa manter a mente ágil. Em seguida, ela testa o olfato: o forte cheiro de fezes humanas invade suas narinas, e ela só consegue concluir que fez uma bagunça. Considerando seu estado, ela nem sente nojo de si mesma; na verdade, está aliviada por seu corpo ainda funcionar normalmente. Apesar do cheiro de excrementos humanos, ela sente um leve odor de mofo e sabe com certeza que há água por perto. Sua língua está seca e sua boca tem um gosto horrível por causa do sangue; se ao menos houvesse um jeito de chegar à água... Ela sabe que, só de pensar nisso, sua desidratação só vai piorar. Ela pensa em um copo de suco de cranberry bem gelado para estimular a salivação e, assim que consegue formar uma pequena quantidade de saliva, engole, trazendo um pouco de alívio para sua garganta.
A dor continua aumentando, até chegar a um ponto em que ela sente que preferiria morrer, mas então se lembra do seu treinamento. Ela visualiza uma bela e exuberante pradaria. Um riacho corre pela grama verde e flores estão espalhadas ao seu redor. Ela só precisa se concentrar nessa imagem e conseguirá superar. Sabe que não adianta tentar escapar; perdeu toda a sua energia e precisa recuperá-la antes de tentar qualquer coisa. Ela força o corpo a relaxar e se concentra na serenidade que conseguiu evocar em sua mente. Deitada na grama, uma borboleta pousa ao seu lado. Ela caminha até uma árvore e pega uma maçã madura que está em sua base. Ao se imaginar dando uma grande mordida na maçã, sua boca saliva novamente e ela quase consegue sentir o gosto da fruta vermelha e suculenta. Ela continua sua meditação e, lenta mas seguramente, a dor diminui; ela sente-se revigorada. Mantém os olhos fechados e move os dedos lentamente; não quer nenhuma pontada repentina de dor. Agradecendo aos céus, ela percebe que todos os seus dedos estão intactos, sem nenhum quebrado ou cortado, o que ela sabe ser prática comum em casos de tortura. Ela se imagina acariciando seu cachorrinho em casa, o que traz um leve sorriso aos seus lábios rachados. Esse sorriso, no entanto, tem um preço: seus lábios começam a sangrar profusamente e sua boca se enche novamente com o gosto de ferro. Ela estica a língua na esperança de capturar qualquer umidade no ar e se considera sortuda quando, ao retraí-la, vê que não está seca. Sentindo-se esperançosa, ela controla a respiração e tenta reter o máximo de oxigênio possível nos pulmões. Ela precisa ativar todas as suas células cerebrais se quiser elaborar um plano de fuga.
Ela permanece em seu pequeno mundo por um tempo que parece uma eternidade; pensa que não tem noção de tempo. Quando se dá conta, esqueceu-se da janela, olha para ela e percebe que o raio de luz voltou. Mas não pode ser o sol; se fosse, teria visto o luar; a menos, é claro, que seja lua nova. Balança a cabeça, nenhum desses pensamentos importa agora. Ela se apega à crença de que a noite passou e decide que vai contar. Uma noite, uma longa noite, se passou desde que recuperou a consciência. Ela encara a janela, tentando absorver toda a luz possível através dos olhos. Esse pequeno raio de luz é tudo o que lhe resta agora, a única réstia de esperança de que um dia poderá se banhar novamente na luz do sol.
Por Sanya Singh

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