As maldades de Josef Mengele: o “Anjo da Morte” de Auschwitz
Por
Gustavo José
Josef Mengele (1911-1979) permanece um dos nomes mais sinistros da história do Holocausto. Médico da SS e oficial nazista, ele transformou o campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau em laboratório de tortura sob o pretexto de “ciência racial”. Conhecido como o “Anjo da Morte” (Todesengel), Mengele personificou a fusão entre ideologia nazista, ambição profissional e sadismo absoluto. Suas ações não foram apenas crimes de guerra: foram a negação deliberada da humanidade das vítimas.
Origens e ascensão
Nascido em 16 de março de 1911 em Günzburg, na Baviera, filho de um fabricante de máquinas agrícolas, Mengele estudou antropologia física e medicina. Doutorou-se em antropologia em 1935 e formou-se em medicina. Aderiu ao Partido Nazista e à SS, absorvendo plenamente a teoria racial nazista que classificava judeus, ciganos (Roma e Sinti) e outros grupos como “inferiores” ou “degenerados”. Antes de Auschwitz, serviu como médico em unidades da Waffen-SS. Em maio de 1943 chegou ao complexo de Auschwitz, onde rapidamente se destacou.
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| Bloco de experimentos médicos de Auschwitz, onde Mengele trabalhava. |
As seleções na rampa
Uma das imagens mais marcantes de Mengele é a da rampa de desembarque em Birkenau. Lá, ele e outros médicos da SS decidiam, com um gesto da mão, o destino de milhares de pessoas que chegavam nos trens: trabalho forçado ou morte imediata nas câmaras de gás. Mulheres, crianças, idosos e doentes eram quase sempre enviados para a morte. Mengele participava com regularidade dessas seleções e, segundo testemunhos, o fazia com frieza, às vezes silvando árias ou mantendo aparência impecável. Em agosto de 1944, ele ajudou a selecionar cerca de 2.893 prisioneiros romani do chamado “campo familiar cigano” para as câmaras de gás.
Os experimentos médicos
O núcleo das maldades de Mengele foram os experimentos “médicos” realizados principalmente em gêmeos (muitos deles crianças), pessoas com heterocromia (olhos de cores diferentes), anões e prisioneiros romani. Motivado pela ideologia de “higiene racial” e pelo desejo de contribuir para o aumento da “raça ariana”, ele tratava seres humanos como material descartável.
Entre as práticas documentadas por sobreviventes e médicos prisioneiros (como Miklós Nyiszli) estão:
- Injeções de substâncias químicas nos olhos de crianças na tentativa de mudar a cor da íris. Muitos ficavam cegos ou morriam; os olhos eram frequentemente enviados a pesquisadores na Alemanha.
- Infecção deliberada de um gêmeo com doenças (tifo, por exemplo) para observar a evolução, seguida da morte do outro gêmeo para comparação por autópsia.
- Transfusões de sangue incompatíveis entre gêmeos.
- Amputações, castrações e esterilizações sem anestesia.
- Tentativas de criar “gêmeos siameses” artificiais costurando crianças pelas costas e ligando vasos sanguíneos; as vítimas morriam de infecção e dor.
- Injeções letais de fenol ou clorofórmio diretamente no coração.
- Coleta sistemática de órgãos, esqueletos, fetos e outros tecidos enviados a institutos na Alemanha.
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| Judeus gêmeos mantidos vivos para serem usados em experimentos médicos de Mengele. Essas crianças foram libertadas de Auschwitz pelo Exército Vermelho em janeiro de 1945. |
Muitos dos “sujeitos” morriam durante os procedimentos ou eram assassinados logo depois para permitir a dissecação comparativa. Das centenas de pares de gêmeos que passaram por suas mãos, apenas uma fração sobreviveu. Crianças que o chamavam de “Tio Papi” quando ele lhes dava doces ou brinquedos descobriam depois a verdadeira natureza daquele homem.
Esses experimentos não produziram conhecimento científico legítimo. Serviram apenas para ilustrar a degeneração moral e a desumanização extremas sob o regime nazista.
Fuga e impunidade
Com a aproximação do Exército Vermelho, Mengele deixou Auschwitz em janeiro de 1945. Após a guerra, viveu escondido na Alemanha por alguns anos e, em 1949, fugiu para a América do Sul com documentos falsos obtidos via Cruz Vermelha. Viveu na Argentina, depois no Paraguai (onde chegou a obter cidadania) e finalmente no Brasil, protegido por redes de simpatizantes e pela própria família. Apesar de ordens de prisão e pedidos de extradição, nunca foi capturado. Em 7 de fevereiro de 1979, sofreu um AVC enquanto nadava perto de Bertioga, no litoral de São Paulo, e morreu afogado. Foi enterrado sob nome falso. Só em 1985 seus restos foram identificados definitivamente.
Legado de horror
Josef Mengele nunca enfrentou um tribunal. Sua impunidade prolongou o sofrimento dos sobreviventes e das famílias das vítimas. Ele representa não apenas um indivíduo sadista, mas o sistema que permitiu que médicos transformassem a medicina em instrumento de genocídio. Os relatos de sobreviventes como Eva Mozes Kor e os documentos preservados no Museu de Auschwitz e no United States Holocaust Memorial Museum continuam a testemunhar a escala de suas atrocidades.
Lembrar as maldades de Mengele não é apenas exercício histórico. É um alerta permanente contra a desumanização, o racismo científico e a indiferença moral. Em Auschwitz, ele mostrou até onde pode chegar o ser humano quando a ética é substituída pela ideologia e pelo poder absoluto sobre a vida e a morte alheias.



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