Mitologias Pagãs e os Precursores dos Demônios

Por Gustavo José
As mitologias pagãs, que abrangem uma vasta gama de crenças e tradições religiosas anteriores ou externas ao monoteísmo abraâmico, oferecem uma rica tapeçaria de narrativas sobre o sobrenatural, a moralidade e o cosmos. Nessas tradições, as entidades que hoje associamos aos demônios – seres espirituais malignos ou caóticos – frequentemente surgem como figuras complexas, nem sempre intrinsecamente más, mas que, com o tempo, foram reinterpretadas como precursoras dos demônios modernos nas religiões monoteístas, como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Este artigo explora como as mitologias pagãs, especialmente as da Mesopotâmia, Grécia, Egito, Índia e Irã, moldaram a ideia de demônios, destacando as divindades, espíritos e forças sobrenaturais que serviram como precursores dessas figuras.


Na Mesopotâmia, uma das primeiras civilizações a desenvolver sistemas religiosos complexos, encontramos algumas das mais antigas representações de entidades que poderiam ser consideradas precursoras dos demônios. Os textos sumérios e babilônicos, como a Epopeia de Gilgamesh, mencionam seres como os gallu e os utukku, espíritos malignos que habitavam o submundo ou vagavam pela terra causando doenças, possessões e infortúnios. A deusa Lamashtu, por exemplo, era uma figura temida, associada à morte de recém-nascidos e ao sofrimento das mães. Diferentemente dos deuses superiores, como Anu ou Marduk, essas entidades eram vistas como forças caóticas que desafiavam a ordem cósmica. Embora não fossem "demônios" no sentido monoteísta, sua natureza destrutiva e sua oposição aos humanos e aos deuses benevolentes estabeleceram um modelo para a demonologia posterior, especialmente no judaísmo, que absorveu elementos mesopotâmicos durante o exílio babilônico.

Na mitologia grega, as figuras que se aproximam da ideia de demônios frequentemente ocupavam um espaço ambíguo entre o divino e o maligno. As Erínias (ou Fúrias), por exemplo, eram divindades vingadoras que perseguiam transgressores, punindo crimes como o assassinato com tormentos psicológicos e físicos. Embora fossem agentes da justiça divina, sua aparência aterrorizante e métodos implacáveis as tornavam figuras temidas. Outras entidades, como os daimones, eram espíritos que podiam ser benévolos ou malévolos, dependendo do contexto. Na filosofia grega posterior, especialmente em Platão, os daimones passaram a ser vistos como intermediários entre os deuses e os humanos, uma ideia que influenciou o conceito cristão de demônios como anjos caídos ou espíritos enganadores. Além disso, monstros como a Quimera, a Hidra ou a Medusa, embora não sejam demônios no sentido estrito, representavam o caos e a destruição, características que seriam associadas aos demônios nas tradições monoteístas.

No Egito Antigo, a demonologia era menos central, mas ainda presente. O panteão egípcio incluía deuses que personificavam forças destrutivas, como Seth, o deus do caos, das tempestades e da violência. Embora Seth fosse um deus, não um demônio, sua oposição a Osíris e Hórus, que representavam a ordem e a realeza, ecoa o dualismo encontrado em sistemas demonológicos posteriores, como o zoroastrismo. Além disso, textos funerários, como o Livro dos Mortos, mencionam espíritos hostis e criaturas do submundo que ameaçavam a alma dos mortos. Esses seres, frequentemente associados a Apep (ou Apófis), a serpente cósmica que tentava devorar o sol e mergulhar o mundo na escuridão, prefiguram a imagem do demônio como um adversário da ordem divina.

Na Índia védica, predecessora do hinduísmo, encontramos os asuras, que são frequentemente citados como precursores dos demônios em outras tradições. Originalmente, os asuras eram divindades poderosas, semelhantes aos devas, mas com o tempo, especialmente nos textos épicos como o Mahabharata e o Ramayana, passaram a ser vistos como antagonistas dos deuses. Figuras como Ravana, o rei demônio do Ramayana, ou os rakshasas, espíritos malignos que devoravam humanos, exemplificam essa transição. Curiosamente, a palavra "asura" é etimologicamente relacionada ao termo avéstico "ahura" (como em Ahura Mazda, no zoroastrismo), enquanto "deva" (divindade no hinduísmo) é cognata de "daeva", que no zoroastrismo designa demônios. Essa inversão reflete a rivalidade cultural e religiosa entre as tradições iranianas e indianas, onde divindades de um sistema foram demonizadas no outro.

O zoroastrismo, como discutido anteriormente, oferece um dos exemplos mais claros de proto-demonologia com Ahriman (Angra Mainyu) e os daevas. Ahriman, o espírito do mal, e seus seguidores demoníacos representam uma força organizada que se opõe à criação de Ahura Mazda. Essa visão dualista, com um mal consciente e ativo, influenciou profundamente as religiões abraâmicas. Por exemplo, o conceito de Satanás no judaísmo e no cristianismo, especialmente na forma de um adversário cósmico, reflete traços do dualismo zoroastriano, embora adaptado a um contexto monoteísta onde o mal é subordinado à vontade divina.

Além dessas tradições, outras culturas pagãs também contribuíram para o conceito de demônios. Na mitologia nórdica, seres como os jotuns (gigantes) ou Loki, o trapaceiro, embora não sejam demônios no sentido moderno, representavam forças de caos que desafiavam a ordem estabelecida pelos deuses aesir. Na África, diversas tradições animistas descrevem espíritos malignos que habitam florestas, rios ou cemitérios, causando doenças ou infortúnios, uma ideia que ressoa com a demonologia cristã posterior.

A transição dessas figuras pagãs para os demônios modernos ocorreu principalmente com a ascensão do monoteísmo. As religiões abraâmicas, especialmente o cristianismo, reinterpretaram divindades e espíritos pagãos como seres malignos subordinados a Satanás. Por exemplo, deuses como Baal (de origem cananeia) ou Pan (da mitologia grega) foram demonizados, com traços seus associados a imagens de demônios com chifres ou cascos. Essa demonização servia tanto para deslegitimar religiões rivais quanto para reforçar a narrativa de um único Deus soberano.

Em resumo, as mitologias pagãs forneceram os alicerces para a demonologia moderna ao criar narrativas sobre forças sobrenaturais que desafiavam a ordem, a moralidade ou os deuses. De Lamashtu na Mesopotâmia a Ahriman no zoroastrismo, essas entidades refletem preocupações humanas universais com o caos, a morte e o desconhecido. Com o advento do monoteísmo, esses precursores foram reinterpretados, ganhando a forma dos demônios que conhecemos hoje. Estudar essas raízes pagãs não apenas ilumina a evolução da demonologia, mas também revela como as culturas humanas lidam com a tensão entre ordem e caos, bem e mal, em suas tentativas de compreender o universo.