A história do cinema de terror brasileiro

Por Gustavo José
Quando se fala em cinema de terror, a primeira imagem que surge na mente da maioria das pessoas costuma vir de Hollywood, com casas mal-assombradas, assassinos mascarados e demônios cinematográficos. No entanto, o Brasil também construiu, à sua maneira, uma trajetória própria dentro do gênero. Talvez menos industrial e menos exportada, mas profundamente autoral, inquietante e culturalmente significativa. O cinema de terror brasileiro existe, resiste e carrega uma identidade singular que mistura folclore, religiosidade popular, violência social e uma estética crua que o diferencia de outras tradições.

José Mojica Marins (1936–2020) foi um cineasta, ator e roteirista brasileiro, considerado o pai do terror nacional. Criador do icônico personagem Zé do Caixão, ele revolucionou o cinema de horror no Brasil a partir da década de 1960 com um estilo autoral e transgressor que unia crítica social, surrealismo e elementos de exploitation.

A história do terror no Brasil começa oficialmente em 1964 com um nome incontornável: José Mojica Marins. Com o lançamento de À Meia-Noite Levarei Sua Alma, Mojica apresentou ao público um personagem que se tornaria símbolo do horror nacional: Zé do Caixão. Vestido de preto, com unhas longas, cartola e olhar perturbador, Zé não era apenas um vilão sobrenatural, mas um niilista convicto que desafiava Deus, a moral cristã e as convenções sociais.

À Meia-Noite Levarei Sua Alma é um filme brasileiro de terror lançado em 1964, escrito, dirigido e estrelado por José Mojica Marins. É considerado o primeiro longa de horror do Brasil e marca a estreia do icônico personagem Zé do Caixão, figura central do cinema fantástico nacional. O filme combina temas de superstição, blasfêmia e vingança sobrenatural.

Naquele contexto histórico, o Brasil vivia o início da ditadura militar. O cinema nacional estava fortemente ligado ao Cinema Novo, movimento de caráter político e social. Mojica caminhava em outra direção. Criava um horror grotesco, blasfemo e existencial, feito com orçamentos reduzidos e imaginação intensa. Seu cinema não dependia de efeitos especiais sofisticados, mas de atmosferas sufocantes e imagens chocantes. 

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver é um filme brasileiro de terror lançado em 1967, dirigido, escrito e estrelado por José Mojica Marins. É o segundo longa da trilogia de Zé do Caixão, personagem icônico do horror nacional. A obra tornou-se um marco do cinema de gênero no Brasil, reconhecida por sua ousadia estética e temas provocativos.

O segundo filme da trilogia, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, aprofundou o mergulho no inferno moral do protagonista, incluindo sequências alucinógenas e ousadas para a época. Décadas depois, Mojica encerraria a saga com Encarnação do Demônio, mostrando que o personagem ainda tinha força simbólica no imaginário brasileiro.

O impacto de Mojica foi duplo. Por um lado, criou o primeiro grande ícone do horror nacional. Por outro, acabou isolado como uma figura quase mítica, já que o gênero não se consolidou de imediato como indústria. Durante muitos anos, o terror brasileiro sobreviveu de forma esparsa, surgindo em produções independentes, filmes marginalizados ou obras que misturavam horror com erotismo e exploração nas décadas de 1970 e 1980.

Nos anos 1990, com a crise do cinema nacional após o fim da Embrafilme, o terror praticamente desapareceu das telas. O foco da retomada do cinema brasileiro no final da década estava voltado para dramas sociais, comédias populares e produções históricas. O horror parecia não encontrar espaço em editais e investimentos públicos, muitas vezes visto como um gênero menor ou excessivamente comercial, ainda que não houvesse uma estrutura comercial consolidada para sustentá-lo.

Foi apenas na década de 2010 que o terror brasileiro começou a experimentar uma revitalização mais consistente. Uma nova geração de cineastas passou a dialogar com o gênero de forma consciente, incorporando referências internacionais, mas mantendo raízes locais. O resultado foi um conjunto de obras que chamou atenção de festivais e da crítica especializada.

Um dos exemplos mais marcantes desse período é As Boas Maneiras. O filme mistura conto de fadas sombrio, drama social e terror fantástico, abordando maternidade, desigualdade e preconceito em uma narrativa que envolve o mito do lobisomem. Em vez de apostar apenas no susto imediato, a obra constrói tensão a partir da atmosfera e das relações humanas, mostrando que o terror pode ser também instrumento de reflexão social.

Dirigido por Dennison Ramalho, “Morto Não Fala” destaca-se por combinar horror sobrenatural com crítica social, explorando o cotidiano violento das periferias urbanas e o universo dos necrotérios brasileiros.

Outro título relevante é Morto Não Fala, que apresenta a história de um funcionário de necrotério capaz de ouvir os mortos. A premissa sobrenatural serve como ponto de partida para explorar culpa, violência doméstica e degradação moral. Aqui, o horror não é apenas externo, mas também interno, manifestando-se nas relações humanas e na deterioração da ética.

Em O Animal Cordial, o terror assume uma forma realista e perturbadora. Ambientado quase integralmente dentro de um restaurante, o filme transforma um assalto em um estudo sobre brutalidade, poder e humilhação. Não há monstros sobrenaturais, mas há algo talvez mais assustador, a crueldade humana exposta sem filtros. Esse tipo de abordagem revela uma característica recorrente do terror brasileiro contemporâneo, o medo nasce da estrutura social, da desigualdade e da violência cotidiana.

Embora não seja um terror tradicional, Bacurau merece menção por sua atmosfera inquietante e pela utilização da violência como elemento simbólico. O filme mistura faroeste, ficção científica e horror social, criando um clima de tensão constante que dialoga com o medo coletivo de apagamento e opressão. Ele demonstra como o gênero pode se fundir com outras linguagens para ampliar seu impacto crítico.

Além do cinema, as séries também passaram a explorar o horror sob uma perspectiva brasileira. Cidade Invisível trouxe o folclore nacional para o centro da narrativa, apresentando entidades como a Cuca e o Curupira em uma abordagem urbana e contemporânea. Essa valorização das lendas locais reforça uma das maiores riquezas do terror brasileiro, sua conexão com mitos próprios.

O Brasil possui um repertório vastíssimo de figuras folclóricas assustadoras, como lobisomem, mula sem cabeça, corpo-seco e cuca, que poderiam sustentar uma indústria inteira de filmes. No entanto, historicamente, essas narrativas foram pouco exploradas pelo cinema comercial. A recente redescoberta dessas histórias aponta para um caminho promissor, um terror que não imita modelos estrangeiros, mas que se alimenta da cultura popular e da oralidade brasileira.

A relevância do cinema de terror brasileiro não está apenas na quantidade de produções, mas na sua capacidade de refletir o contexto social do país. Em um território marcado por desigualdade, violência urbana e tensões religiosas, o horror assume contornos específicos. Muitas vezes, o medo não vem de castelos europeus, mas de bairros periféricos, conflitos familiares e instituições fragilizadas. O sobrenatural se mistura com o real de maneira quase inseparável.

Outro aspecto importante é a estética. Enquanto Hollywood investe em grandes orçamentos e efeitos digitais sofisticados, o terror brasileiro frequentemente trabalha com limitações financeiras. Essa restrição, longe de ser apenas um obstáculo, incentiva soluções criativas. O foco recai sobre atmosfera, atuação e construção psicológica. O resultado é um horror mais cru, menos polido e por vezes desconfortável, mas também mais autêntico.

A crítica internacional tem demonstrado interesse crescente por produções brasileiras do gênero, especialmente em festivais especializados. Isso indica que existe espaço para o terror nacional no mercado global, desde que mantenha sua identidade. Copiar fórmulas estrangeiras raramente gera impacto duradouro. Já a exploração das próprias angústias culturais tende a produzir obras mais memoráveis.

Ainda assim, desafios persistem. O financiamento é instável, a distribuição é limitada e o público brasileiro muitas vezes associa qualidade no gênero apenas a produções estrangeiras. Romper essa barreira exige continuidade, investimento e formação de plateia. O crescimento das plataformas de streaming abriu novas possibilidades, permitindo que filmes e séries alcancem públicos antes inacessíveis.

O futuro do cinema de terror brasileiro depende da valorização de sua singularidade. O país tem matéria-prima abundante, como lendas regionais, conflitos sociais intensos, diversidade cultural e uma tradição religiosa rica em simbolismo. O medo brasileiro não precisa ser importado. Ele já existe nas narrativas populares, nas histórias contadas à beira da fogueira e nas crenças transmitidas de geração em geração.

Se olharmos para trás, veremos que o caminho foi irregular, mas persistente. De Mojica e seu Zé do Caixão aos filmes contemporâneos que dialogam com festivais internacionais, o terror brasileiro construiu uma trajetória marcada por resistência. Ele nunca foi dominante, mas sempre esteve presente, aguardando momentos de revitalização.

Hoje, o gênero vive uma fase de maior reconhecimento crítico e artístico. Talvez ainda falte uma grande explosão comercial que consolide o terror como um dos pilares da indústria nacional. Mesmo assim, sua relevância cultural é inegável. O cinema de terror brasileiro funciona como espelho distorcido da sociedade, revela medos coletivos, expõe feridas abertas e transforma angústias históricas em narrativa audiovisual.

Em última análise, o terror no Brasil não é apenas entretenimento. Ele é comentário social, experimentação estética e afirmação cultural. Ao assumir suas raízes religiosas, folclóricas e políticas, o gênero demonstra que o medo pode ser uma poderosa ferramenta de reflexão. E talvez seja justamente essa mistura de brutalidade, simbolismo e crítica que torne o cinema de terror brasileiro não apenas existente, mas necessário.