O Dictionnaire Infernal de Collin de Plancy
O Dictionnaire Infernal (Dicionário Infernal) é uma das obras mais fascinantes e influentes da demonologia e do ocultismo do século XIX. Escrito pelo francês Jacques Auguste Simon Collin de Plancy (1794–1881), o livro foi publicado pela primeira vez em 1818 e se tornou um verdadeiro marco na catalogação de crenças sobrenaturais, demônios, superstições e fenômenos misteriosos.
Origem e trajetória do autor
Jacques Collin de Plancy nasceu em uma família modesta e, influenciado pelo racionalismo iluminista e pelas ideias de Voltaire, iniciou sua carreira como livre-pensador e anticlerical. Ele era impressor, livreiro e escritor prolífico. Em sua juventude, via os relatos sobre demônios, magia e aparições como meras superstições e “erros” da mente humana que mereciam ser catalogados e refutados.
O Dictionnaire Infernal surgiu exatamente nesse contexto: como uma espécie de enciclopédia irônica e crítica das crenças “maravilhosas, surpreendentes, misteriosas e sobrenaturais”. O subtítulo completo da obra já revela sua ambição enciclopédica:
Repertório universal dos seres, personagens, livros, fatos e coisas que dizem respeito às aparições, à magia, ao comércio com o Inferno, às divinhações, às ciências secretas, aos grimórios, aos prodígios, aos erros e preconceitos, às tradições e contos populares, às diversas superstições e, de modo geral, a todas as crenças maravilhosas, surpreendentes, misteriosas e sobrenaturais.
Entre 1818 e 1863, o livro passou por seis edições, com alterações significativas. Curiosamente, a vida do autor mudou drasticamente: por volta de 1830–1840, Collin de Plancy abandonou o anticlericalismo, converteu-se ao catolicismo fervoroso e passou a alinhar sua obra à ortodoxia da Igreja. As edições finais, especialmente a de 1863, refletem essa guinada. O tom crítico diminui e a obra passa a afirmar a realidade dos demônios dentro de uma perspectiva católica.
Conteúdo da obra
O Dictionnaire Infernal é organizado em formato de dicionário alfabético. Ele reúne:
- Descrições de demônios individuais (com hierarquias infernais inspiradas em grimórios como a Chave Menor de Salomão)
- Entidades de diversas tradições (cristãs, judaicas, pagãs, orientais)
- Superstições populares, lendas, bruxaria, adivinhação, grimórios e prodígios
- Personagens históricos ou mitológicos associados ao sobrenatural
- Críticas (nas primeiras edições) ou defesas (nas últimas) de crenças demoníacas
Entre os demônios mais famosos descritos estão Bael, Asmodeus, Astaroth, Belzebu, Moloch, Belphegor, Mammon, Lucifer, Satanás, Lilith, entre muitos outros. Totalizando dezenas de entradas detalhadas.
A edição de 1863 e as ilustrações icônicas de Louis Le Breton
A edição mais famosa e duradoura é a sexta, publicada em 1863 em Paris pela editora Henri Plon. Nela foram incluídas cerca de 69 ilustrações (algumas fontes citam até 72 retratos de demônios) desenhadas por Louis Le Breton e gravadas em madeira (principalmente por M. Jarrault).
Essas imagens são responsáveis pela fama duradoura do livro. Le Breton criou representações grotescas, surreais e memoráveis:
- Demônios com pernas de aranha ou de galinha
- Criaturas com múltiplas cabeças de animais
- Figuras híbridas que misturam elementos humanos, animais e monstruosos
- Estilo detalhado, quase caricatural, mas profundamente perturbador
Muitas dessas ilustrações foram posteriormente reutilizadas em outras obras ocultistas, como a edição de S. L. MacGregor Mathers da Chave Menor de Salomão. Até hoje, quando se pensa em “demônios clássicos do ocultismo”, as imagens de Le Breton são as que vêm à mente da maioria das pessoas.
Importância cultural e legado
O Dictionnaire Infernal transcendeu seu tempo por vários motivos:
- Documentou o imaginário sobrenatural do século XIX, preservando lendas e crenças que de outra forma poderiam ter se perdido.
- Influenciou o ocultismo moderno, servindo de referência para grimórios, tarô, literatura fantástica, jogos de RPG, filmes de terror e heavy metal.
- Representa uma ponte entre o racionalismo iluminista e o romantismo gótico/ocultista.
- As ilustrações tornaram-se ícones visuais da demonologia popular, circulando amplamente na internet e em livros de arte sombria.
Apesar de ter sido escrito inicialmente para combater superstições, o livro acabou perpetuando e popularizando exatamente o que pretendia criticar — a fascinante mitologia dos demônios.
Mais de 200 anos após sua primeira publicação, o Dictionnaire Infernal ainda é lido, consultado e admirado (ou temido) como um dos grandes clássicos do macabro ilustrado. Suas páginas misturam ceticismo, fé, terror e imaginação — um reflexo perfeito das contradições do próprio autor e de toda uma era.
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