Vi uma coisa que se parecia com um altar profanado cercada por instrumentos cirúrgicos

Por Gustavo José
A luz fria e esverdeada que pendia do teto lançava sombras tortuosas sobre as paredes descascadas. Era uma sala que parecia ter engolido o tempo, um lugar onde o passado se agarrava às superfícies como teias de aranha empoeiradas. O ar estava pesado, carregado de um cheiro metálico que se misturava ao mofo e à ferrugem. No centro, a mesa de operações, coberta por um lençol amarelado e rasgado, parecia um altar profanado, cercada por instrumentos cirúrgicos espalhados como relíquias de um ritual esquecido. Cadeias pendiam do teto, balançando levemente, como se algo invisível as tivesse tocado há pouco. As portas duplas no fundo, entreabertas, revelavam apenas escuridão além do limiar, um convite mudo para o desconhecido.

Eu não sabia como havia chegado ali. Meus passos ecoavam no chão úmido, manchado por rastros escuros que poderiam ser sangue seco ou apenas a imaginação de alguém que já havia perdido a noção do que era real. Minhas mãos tremiam enquanto seguravam uma lanterna improvisada, uma pilha de baterias quase esgotadas que lançava um feixe fraco contra as paredes. Cada canto parecia esconder algo — um movimento sutil, um sussurro que se dissipava antes que eu pudesse captá-lo. Era como se a sala estivesse viva, respirando em um ritmo lento e irregular, guardando segredos que não queria revelar.

Meu nome é Clara, ou pelo menos era assim que me chamavam antes de tudo desmoronar. Não sei há quanto tempo estou vagando, mas essa sala parecia um marco, um ponto de não retorno. Lembranças fragmentadas dançavam em minha mente: o som de sirenes, o cheiro de antisséptico, vozes apressadas gritando ordens. Era um hospital, disso eu tinha certeza. Mas este lugar não era mais um refúgio para os vivos. Era uma tumba, um mausoléu de aço e azulejos quebrados.

Aproximei-me da mesa de operações com cautela. Sobre ela, havia uma bandeja de metal com bisturis, pinças e agulhas enferrujadas, dispostas de forma desleixada, como se alguém as tivesse abandonado no meio de um procedimento. Um dos bisturis estava manchado, a lâmina opaca refletindo a luz verde de maneira distorcida. Ao lado, um pedaço de papel amassado chamou minha atenção. Desdobrei-o com dedos trêmulos, revelando uma caligrafia tremida, quase ilegível. "Eles estão ouvindo. Não confie nas luzes." As palavras me gelaram, e eu olhei instintivamente para o teto, onde o painel luminoso zumbia baixo, como um inseto preso.

Quem escrevera aquilo? E o que significava "eles"? Minha respiração acelerou, e o som parecia amplificado naquele silêncio opressivo. As cadeias acima de mim tilintaram, e eu recuei, apontando a lanterna para o teto. Nada. Apenas sombras dançando com o balanço fraco das correntes. Tentei me convencer de que era o vento, embora soubesse que não havia janelas naquele ambiente claustrofóbico.

Decidi explorar mais. Ao lado da mesa, um armário de metal rangia com as dobradiças quebradas. Abri-o lentamente, revelando frascos quebrados, gazes emboloradas e um caderno preto, intocado pela poeira. Folheei as páginas com cuidado. Eram anotações, registros de cirurgias, mas algo estava errado. As datas não faziam sentido — algumas remontavam a décadas atrás, outras pareciam projetadas para o futuro. Uma entrada, escrita em tinta vermelha, dizia: "Paciente 13. Procedimento interrompido. Eles vieram antes que terminássemos." Meu coração disparou. Quem eram "eles"? Médicos? Pacientes? Algo pior?

Enquanto lia, um ruído baixo veio das portas duplas. Um arrastar, como pés arrastando-se pelo chão. Soltei o caderno, que caiu com um baque surdo, e me virei, apontando a lanterna para a escuridão além das portas. Por um instante, pensei ter visto uma sombra se mover, alta e desajeitada, mas logo desapareceu. Meu instinto gritava para correr, mas minhas pernas pareciam presas ao chão, como se a sala me quisesse ali, como uma oferenda.

Respirei fundo e decidi que precisava saber mais. Caminhei até as portas, o som dos meus passos misturando-se ao zumbido da luz. Ao empurrá-las, um corredor se revelou, estreito e mal iluminado por lâmpadas piscantes. As paredes estavam cobertas de grafites estranhos, símbolos que não reconhecia, mas que pareciam pulsar com uma energia inquietante. No chão, marcas de arranhões profundos cortavam o concreto, como se algo pesado tivesse sido arrastado contra a vontade.

Avancei, guiada por uma mistura de curiosidade e medo. O corredor parecia infinito, mas após alguns metros, cheguei a outra sala. Esta era menor, com uma única cadeira de metal no centro, amarrada com correias de couro rachado. Sobre uma mesa ao lado, havia uma máquina antiga, com fios soltos e uma tela quebrada. Um gravador de fita repousava ao lado, e, quase por reflexo, apertei o botão de play. Uma voz rouca e entrecortada preencheu o silêncio.

"Data: 14 de outubro de 1998. Experimento 47. O sujeito resistiu mais do que o esperado. Os sinais vitais estão instáveis, mas eles insistem que continuemos. Dizem que é para o bem maior. Não sei mais no que acredito. A luz... ela fala comigo à noite. Diz que eles estão chegando."

A fita parou com um clique seco. Meu estômago revirou. 1998? Isso era há quase três décadas. Mas a sensação de que algo naquela sala ainda estava ativo era inegável. Olhei para a cadeira e imaginei o que teria acontecido ali. Quem era o sujeito? E quem eram "eles"?

De repente, as luzes piscaram, e um som agudo ecoou pelo corredor. Virei-me para fugir, mas as portas por onde eu entrara estavam fechadas. Bati nelas com força, gritando por ajuda, mas o som era abafado, como se a sala me engolisse. Foi então que ouvi novamente — o arrastar, agora mais próximo. Uma figura emergiu da escuridão do corredor, alta e encurvada, com membros que pareciam se mover de forma errada. Seus olhos, ou o que eu imaginei serem olhos, brilhavam com um reflexo verde, como os da luz acima.

Congelei, a lanterna tremendo em minhas mãos. A figura parou a poucos metros, inclinando a cabeça como se me estudasse. Não era humana, disso eu tinha certeza. Sua pele era cinzenta, esticada sobre ossos que pareciam mal ajustados. E então, ela falou — uma voz gutural, quase ininteligível.

"Você ouviu as luzes," disse ela. "Agora você pertence a elas."

Antes que eu pudesse reagir, as cadeias no teto começaram a se mover sozinhas, descendo em minha direção. Tentei correr, mas o chão parecia se contorcer sob meus pés. A última coisa que vi foi a luz verde piscando acima, enquanto uma escuridão fria me envolvia.